Palhaços, Colombinas e Piratas

Era fim de tarde daquele domingo de carnaval de 1970. A mãe passara o dia cantando
antigas marchinhas, debruçada sobre sua máquina de costura. Por fim parou o trabalho e
disse para as duas crianças mais velhas de um total de seis:

– Vão tomar banho e se arrumar que iremos ver o desfile das escolas de samba.
Desfile de escola de samba? O que seria aquilo? As crianças se perguntavam como seria
uma “escola” de samba. Conheciam o desfile dos maracatus e dos blocos de sujo em sua
terra natal, mas nunca tinham ouvido falar de escola de samba. Daquele momento até
estarem prontas para sair foi um turbilhão de curiosidade invadindo as cabeças das duas
crianças.

Já estava anoitecendo quando a mãe e as duas crianças saíram de casa. O menino, mais
novo, vestia calças curtas de tergal azul marinho, camiseta de malha com listas azuis,
amarelas e vermelhas e sapato de borracha Vulcabrás. A menina vestia saia de pregas
xadrez em tons de vermelho e azul, uma batinha branca de alcinhas e sandálias brancas
de tirinhas. A mãe estava com um vestido vermelho, tipo tubinho, e sandálias brancas.
De mãos dadas com a mãe, as duas crianças partiram para um mundo desconhecido
envoltos na alegria desmedida do domingo de carnaval.

No caminho para a estação de trens, a mãe comprou-lhes duas bisnagas de plástico que
cheias de águas com sabão seriam armas importantes nas batalhas do dia seguinte com
os outros irmãos e a meninada da vizinhança. Também lhes comprou dois martelos de
plástico que aos serem batidos contra alguém ou alguma coisa, fazia um barulhinho
agudo. Chegando à estação encontraram a plataforma cheia de palhaços, colombinas,
piratas, hawaianas, bate-bolas e tantas outras fantasias vestidas por homens, mulheres e
crianças. Havia, também, muitos, muitos homens vestidos de índio americano. A pedido
do menino, a mãe perguntou o nome do bloco do qual faziam parte e ficaram sabendo
que todos eram do Cacique de Ramos e que estavam indo para avenida ganhar do Bafo
da Onça. Os integrantes do Cacique começaram a cantar o samba do bloco e toda
plataforma foi contagiada pela alegria que saía daquelas gargantas carnavalescas.

Quando o trem chegou foi uma algazarra tremenda. Um mundo de gente invadiu os
vagões que já estavam apinhados. A cada momento uma marchinha ou um samba eram
lembrados e todos no vagão cantavam a mesma música até que fosse substituída por
outra tão ou mais empolgante. Uma velhinha, vestida de pistoleira, perguntou ao
menino onde ele estava indo. Quando soube que ele estava indo ver as escolas de
samba, a senhorinha começou a falar de forma entusiasmada sobre como era o desfile
na Avenida Presidente Vargas. Segundo ela, todas as escolas eram maravilhosas, os
sambas eram contagiantes e empolgavam as arquibancadas. Mangueira, Salgueiro,
Portela, Império Serrano, Unidos de Lucas, Em Cima da Hora… A velha foliã falava de
cada escola como se já tivesse desfilado em todas as alas. Falava de passistas, mestres-
salas e portas-bandeiras, baianas e abre-alas. Nesse quesito, dizia ela, ninguém superava
a Portela com sua águia altaneira, abrindo a avenida para a escola passar. A visão de um
pássaro sobrevoando uma avenida, gritando para o povo “Deixa a Portela passar!”,
encantou o menino que se imaginou voando com a águia e pousando magicamente no
meio da avenida para os aplausos do público nas arquibancadas.

Quando chegaram à Central do Brasil já era noite fechada. Fora da estação eles
passaram por carros alegóricos que já haviam desfilado. A mãe ficara sabendo que os
lugares nas arquibancadas eram pagos. Eles não tinham dinheiro para comprar as
entradas que também já estavam esgotadas. O jeito, segundo a mãe, era irem até a área
de concentração onde os componentes ficavam aguardando o inicio do desfile. Lá eles
poderiam ver os carros alegóricos e as fantasias, e a bateria tocava o samba-enredo para
“esquentar” os integrantes da escola.

Na concentração, espremidos entre grades de ferro, eles viram passar alas imensas:
baianas, índios, capoeiras… O cansaço batia forte, mas as duas crianças não queriam
arredar o pé daquele lugar. Em meio aquela multidão havia torcedores de todas as
escolas e todos, em absoluto, diziam que sua escolar seria a campeã. De repente a
notícia chegou provocando uma correria da multidão em direção às arquibancadas: a
entrada estava liberada!

A mãe pegou nas mãos das duas crianças e as arrastou em direção às arquibancadas
buscando uma entrada que tivesse menos tumultuada. Já havia passado por dois setores
quando vislumbrou uma entrada em que as pessoas subiam ordeiramente e para lá
caminhou célere arrastando as duas crianças. O menino tomou à frente e foi subindo os
degraus. Parecia que estava entrando em um túnel e que na outra ponta uma grande
luminosidade o esperava. Alguém passou por ele gritando: “É a Portela entrando na
avenida!” e subiu os degraus em disparada. O coração do menino se apertou e começou
a pulsar mais forte. Quando chegou ao alto da escada ele se viu no meio de uma
arquibancada totalmente lotada com pessoas em pé agitando bandeiras azuis e brancas e
foi então que ele ouviu a música cantada por uma arquibancada apaixonada:

“Portela! Portela!
O samba trazendo a alvorada
Meu coração conquistou”

O menino olhou para baixo e no meio da avenida, à frente da escola, vinha a águia
como que abrindo as asas para a escola passar. A Portela iniciou seu desfile e um mar
azul salpicado de espumas brancas coloriu a passarela. Extasiado, o menino a tudo
assistia, sem piscar os olhos, embalado por uma multidão que aplaudia e gritava a
plenos pulmões: “Já ganhou! Já ganhou!”

A escola passava diante dos seus olhos com seus carros alegóricos cheios de Tupã,
Jaçanã e cavalos montados por índias guerreiras, mostrando a exuberância da
Amazônia, e a bateria, simbolizando o rio-mar, arrancava aplausos entusiasmados
enquanto a multidão cantava em êxtase:

“A lua apaixonada chorou tanto
Que do seu pranto nasceu o rio-mar”

Na apuração do resultado, na quarta-feira de cinzas, a Portela sagrou-se campeã – o
último campeonato que ganhou sozinha. Naquela madrugada de segunda-feira, ao
passar pela avenida como um rio de águas cristalinas e borbulhantes, a Portela ganhou
mais do que um carnaval: ganhou o amor e a cumplicidade eternos de um torcedor que
jamais deixará de se emocionar ao vê-la desfilar a cada novo carnaval.

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