O ano surge da boca do mar

Não se lembrava há quanto tempo tinha esse ritual incorporado ao seu novo ano. O fato é
que ele existia por si só e isso, mais do que uma obrigação ou um dever, tinha se tornado
para ela um prazer. O que lhe daria tanta alegria quanto estar ali, naquele momento,
celebrando seu reencontro com a vida? Não sabia. Talvez, quando tivesse essa medida de
intensidade, esse momento único que lhe acontecia uma vez por ano se tornasse ainda mais
significante e fosse a raiz de tudo que se lhe apresentasse no futuro.

Foi em 2000? Antes ou depois? Não importa. Na verdade tem para si que desde sua tenra
idade isso já assim se procedia, só que não tinha consciência da importância e do
significado que esse momento teria para sua vida.

Já havia se passado cinco dias do ano de 2007 e somente agora, para ela, ele iria começar. É
um calendário todo próprio, derivado do Juliano, mas com algumas particularidades. Não
tem dia certo para iniciar. Pode ser dia primeiro ou sete. Pode ser em janeiro ou até mesmo
março. Além disso não, porque não suportaria tanta ausência do mar. O que é essência
nisso tudo é que seja um dia de sol forte e céu azul, limpo ou com raras nuvens no céu. O
ano novo começava no primeiro dia em que ela pudesse ir ver o mar de dentro do Caminho
do Bem-te- vi, sentada sobre a sua pedra favorita. Ali, de olhos fechados, sentido o sal do
mar lhe invadir o peito e se depositar em sua derme, ela comemorava um novo ano.

Fora difícil encontrar uma vaga para estacionar. A Urca esta cada vez mais, como todo Rio,
inundada de carros e hoje, sábado, a procura desse recanto é cada vez maior.

Agora ela estava ali, sentada numa pedra, de frente para a entrada da Baía de Guanabara.
Ver aquela entrada, que se assemelha a uma grande boca tragando as águas límpidas do mar
aberto, como a tentar expulsar as águas fétidas que em alguns pontos banham as sua praias,
é fascinante. E esse céu azul, sem nuvens, em contraste com o verde da mata que circunda o
morro do Leme, faz a água parecer mais azul e a espuma branca que se forma quando ela
banha as pedras, brilha com mais intensidade.

É assim, admirando esse mar imenso se estreitando para depois se expandir e banhar as
praias que vão da Urca à Magé, no fundo da baía, que ela considerava que o ano realmente
começara, era novo!

Ali, sentada na pedra, ela rememorava tudo que lhe acontecera no ano que findara. O que
lhe fizera crescer, o que aprendera, aonde errara e o que deixara de fazer. Ali, numa
conversa entre ela e o mar, havia uma prestação de contas, íntima e pessoal, onde não há
lugar para reprimendas nem lamentos. É uma forma de celebrar a vida, pois essa menina, a
vida, não deve ser importunada com lembranças ruins.

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