Janjão – O Gato Preguiçoso

Para Manú

A menina colocou a comida do gato em um pratinho. Provou com a ponta do dedo e fez
cara de quem gostou. Pegou o pratinho e o colocou no chão, próximo a pia da cozinha.
A mãe estava agitada porque pressentia que iria chegar atrasada ao trabalho mais uma
vez:

– Manú, já colocou a comida do gato?

– Sim, mamãe.

Com todo cuidado ela arrumou o pratinho sobre um pedaço de jornal. Sabia que o gato
era um tanto desajeitado e brincalhão e que sempre deixava cair um pouco de comida no
piso da cozinha, o que deixava sua mãe extremamente irritada.

– Manú, eu já estou indo. Pegue a sua mochila e vamos embora?

A menina então chamou o gato.

– Psiu, psiu, psiu… Gatinho… Vem comer…

Janjão, esse é o nome do gato, virou-se lentamente para a menina e abriu os olhos com
enorme sacrifício. Esticou as pernas, rodou a cabeça e começou a lamber o peito. A
menina vendo aquilo apressou o gato:

– Janjão, vem aqui seu gato preguiçoso!

O gato fechou os olhos e virou-se para o outro lado, ignorando completamente os apelos
da menina que foi até a sala e o sacudiu levemente. Ele se levantou, andou alguns
passos e deitou-se novamente. A mãe da menina, perdendo completamente a paciência,
falou:

– Manú, deixa esse gato aí! Quando ele tiver fome ele vai comer! Vamos embora se não
você vai perder o lanchinho da manhã na escola.

Ah, isso, não. Não iria ficar com fome até a hora do almoço por causa do Janjão.

– Estou indo! Tchau Janjão. Coma e descanse bastante.

O gato não lhe deu a mínima atenção. Continuou cochilando até ser despertado por um
barulhinho.

– “Ih, cara, acho que estou com fome… minha barriga esta roncando pra caramba!”

Pensou isto e abriu a boca num enorme bocejo, mostrando seus dentes afiados e a língua
muito vermelha, mas a preguiça era tanta que ele limitou-se a olhar para o pratinho com
a comida e voltou a fechar os olhos em mais um cochilo.

Passado algum tempo, o gato voltou a ser incomodado pelo seu estomago. Sua barriga
agora roncava mais alto. Ele abriu os olhos, espreguiçou-se e ficou olhando o pratinho
de comida como que querendo puxá-lo com a força do olhar. De repente ele viu um
ratinho cruzar a porta carregando um pedacinho de sua comida. Ele achou que estava
sonhando. Imagina, um rato na casa… Seria um desrespeito completo à sua autoridade!
E assim pensando cochilou mais uma vez…

Um barulho de patinha sobre papel lhe acordou novamente. Ele sentia a garganta seca e
o estômago cada vez mais vazio, mas seu corpo lhe pedia para ficar deitado. Ele esticou
as pernas, passou a língua pelos bigodes e ficou com os olhos semi-serrados. Estava
assim, indagando-se, intimamente, se já era hora de se levantar quando viu dois ratinhos
carregando pedacinhos de sua comida. Êpa! A coisa estava ficando séria… não, não
poderia haver ratos naquela casa pois ela contava com um valoroso caçador de ratos, o
gato mais temido da região. Rato algum se atreveria a entrar em sua casa.
Provavelmente estava sonhando… e assim pensando rolou para o outro lado e fechou
novamente os olhos num leve cochilo.

Hum… estava escutando um barulho. Snif, snif, snif… pelo cheiro devia ser rato. Ho, ho,
ho, o dia estava quente e sua fome lhe trazia o cheirinho de comida, mas espera aí! Ele
não comia ratos, apenas os caçava. Gostava mesmo era daquela comidinha que vinha
naquela latinha maravilhosa… sua boca se encheu de água ao pensar naquela comidinha
com sabor de atum fresco. Então, se não estava caçando ratos e estava deitado em seu
tapete preferido, é lógico que estava em casa. Então ele abriu os olhos e viu três ratinhos
carregando um pouco de sua comida.

Há, há, há, seria engraçado mesmo se um rato resolvesse desafiá-lo em sua própria casa
e comer o seu almoço, imagina três… não, nenhum rato cometeria tal sandice, seria
morte certa, ele era um gato famoso na região conhecido como o mais esperto caçador
de ratos daquelas bandas…não, estava vendo coisas… a fome estava lhe pregando uma
peça para que ele se levantasse e fosse até a cozinha… não, não, não… a fome não
domina um gato, um gato é senhor dos seus sentidos e o seu sentido mais importante lhe
dizia que era para ficar um pouco mais deitado, descansando o corpo para os passeios
noturnos.

Agora sua barriga lhe doía. Abriu os olhos, decidido a se levantar. Começou a lamber os
olhos… um gato devia estar sempre limpo e ele, charmoso, pêlo macio e bigodes
imensos não deveria se descuidar. Ah, mas o dia estava tão quente e ele se sentia tão
cansado… e assim pensando esticou as patas e depois começou a lambê-las
pacientemente… puxa vida! Que sonho mais estranho tivera. Que coisa de maluco! Três
ratos invadindo seu território e levando partes de sua comida… é… fora um sonho muito
doido mesmo. E assim pensando rolou para o outro lado e ficou admirando um raio de
sol que entrava por uma das janelas do corredor que ligava a sala de jantar à cozinha.
Esse solzinho da manhã é uma maravilha… seria bom se ele brincasse um pouco de
passar seu corpo através dessa luzinha, mas a noite fora muito boa e agora estava
ficando muito quente e com calor não há nada melhor do que ficar deitado esperando a
menina Manú trazer sua comidinha… oh, céus! Havia esquecido! A menina deixara sua
comida na cozinha e ela devia estar no pratinho, suculenta, lhe esperando. Mal acabou
de ter esse pensamento e se virou para olhar a porta que ligava o corredor à cozinha… e
viu quatro ratos levando pedaços de sua comida. Ahã! Não era sonho! A casa estava
mesmo sendo atacada por ratos. Como ousavam? Não havia mais respeito por um
grande caçador, como ele? Isso só podia ser coisa daquele nojentinho do Frederico,
aquele gato bobão da casa vermelha… sim, aposto como ele fez acordo com esses ratos
para não comê-los em troca de virem me o perturbar, sim, porque ele come ratos, argh!
Que nojo! Sim, somente isso explicaria ele estar vendo quatro ratos dentro de sua casa,
roubando a sua comida. É… estava na hora de mostrar quem é que manda no pedaço…
hi, hi, hi, que loucura… esse calor forte está lhe afetando os miolos… nenhum rato se
atreveria a encarar a sua ira felina… que bobagem… e assim pensando Janjão fechou os
olhos e voltou a cochilar.

O sol devia estar lá no alto… já devia ser meio-dia… sim, agora era hora de levantar e ir
degustar o seu prato preferido: atum ao molho de tomate! Que delícia! Mais uma vez
esticou suas patas, rodou a cabeça e disse para si mesmo: “Vai garoto, seu gato
gostosão!”, coçou a barriga e se assustou a ver que estava muito murcha. É… precisava
comer e já! E assim pensando virou-se para o lado da cozinha, se preparando para
levantar-se… quando viu cinco ratos passando pela porta levando pedaços de sua
comida. Instintivamente ele se levantou e disparou em direção a cozinha. Quando
chegou, viu o último dos ratos passando por debaixo da porta. Tentou pegar seu rabo
com a pata, mas não obteve sucesso. O rato escapara. “Tudo bem”, pensou em seguida,
“vou comer minha comida e esperar que eles voltem para pegar mais, aí, eu os pego
com a boca na botija.” E assim pensando virou-se para o lugar onde estava o pratinho
com sua comida e ficou paralisado. Os ratos haviam comido toda a sua comidinha.
Desesperado correu até a lixeira para ver se ainda tinha alguma coisa na lata e viu que
ela estava limpinha. “Malditos ratos!”, pensou, “comeram toda a minha comida!”

Janjão, agora, estava numa situação difícil: não tinha mais comida e nem podia sair para
procurar alguma coisa pelas redondezas porque a casa estava toda fechada. É… sua
preguiça fora fatal… de que adiantava agora estar descansado se não tinha comida e nem
como sair… realmente a preguiça não é boa companheira… e pensando assim, Janjão
voltou para seu tapetinho e procurou dormir para tentar enganar a fome enquanto
esperaria a menina Manú chegar e colocar mais atum com molho de tomate em seu
pratinho.

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