De papo pro ar

Acordo de manhãzinha com o canto matutino de um galo cego.Minha janela se abre para o mato onde um estreito caminho me levará ao rio. Saio pro quintal espantando o sono… molho o rosto com a água fria que jorra de uma bica de bambu. Água boa de nascente pura, escondida no arvoredo. Ouço cantar de pássaros, piá de pinto com fome, arrulhar de pombo. Um cheiro de café sendo torrado me invade as narinas. O sol pega as folhas mais altas e sapeca nelas seu brilho. Hoje vai ser dia quente… Não tem vento e vejo um bem-te-vi pousar na ponta de um moirão… Pego meu caniço, o enxadão… coloco umas bolachas de sal numa bolsa à tira-colo e pego a direção do rio. Meus pés conhecem o caminho.

A botina vai ficando molhada com o orvalho deitado nos arbustos e capinzal. No fim da trilha passa a linha do trem e eu, que me via na porta deixando o vento brincar com meus cabelos, passando por um campo de girassóis, equilibro-me no trilho igual a um passarinho nas pontas dos galhos do pé de jamelão. Não vou até o fim da linha… Nem sei onde ela vai dar. Só quero chegar até a Ponte Velha. É embaixo dela, entre as pedras, que gosto de pescar. Tem loca de traíras, bagres e mandis. Ali perto tem terra fofa, úmida, onde as minhocas, grandes e lustrosas, gostam de ficar. É lá que vou passar o dia… esperando um peixe graúdo e comendo bolachas de sal.

Mais tarde vou até o sítio do Nego. Tem pomar abandonado… É tempo de jaca e o cheiro adocicado fruta madura me enche a boca de água. No fim da tarde vou até a Mãe Joana, uma figueira enorme que tombou sobre o leito do rio e vou mergulhar na boca do lobo, poço matreiro no fim de uma corredeira conhecida por véu de noiva.

No fim do dia vou voltar para minha casinha. Não volto pela linha do trem… gosto de ir pela trilha do ouro, com os pés descalços que nem os escravos faziam antigamente. Sinto o cheiro do abiu, amarelo, suculento que o coleiro esperto deixou vazando o sumo para atrair os insetos. Chego na cerca da Fazenda do Antero. Afasto o arame farpado para poder passar sem me arranhar. Vou pensando em frigideira, farinha e óleo quente. Quero fazer uma farofa misturando essa traíra e essa meia dúzia de mandis. Vou chamar Mariazinha, minha irmã mais pequenina, Vamos sentar na cozinha, perto do fogão de lenha, num tronco de eucalipto que nos aceita por cima. Mãe fará refresco com maracujás que colhi na cerca de dona Lulu. Vou pegar minha viola e sentar numa rede esgarçada que me espera no alpendre.

A moda que fiz pra ti virá como a noite calma que traz nas palmas das mãos o som dos bichos no mato. Sentirei saudade da tua boca, mesmo sem nunca a ter beijado, pedirei a Deus que me liberte desse corpo pequenino e me dê um par de asas. que me leve ao teu castelo para sentir teu perfume e adormecer no teu colo como se eu fosse um menino que sonha em ser gente grande, ou um adulto que agilmente recolherá os beijos que caírem da tua boca quando tu te distraíres pulando em sonho a espuma branca das ondas que te alcança na beira do mar.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *