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Palhaços, Colombinas e Piratas

Era fim de tarde daquele domingo de carnaval de 1970. A mãe passara o dia cantando
antigas marchinhas, debruçada sobre sua máquina de costura. Por fim parou o trabalho e
disse para as duas crianças mais velhas de um total de seis:

– Vão tomar banho e se arrumar que iremos ver o desfile das escolas de samba.
Desfile de escola de samba? O que seria aquilo? As crianças se perguntavam como seria
uma “escola” de samba. Conheciam o desfile dos maracatus e dos blocos de sujo em sua
terra natal, mas nunca tinham ouvido falar de escola de samba. Daquele momento até
estarem prontas para sair foi um turbilhão de curiosidade invadindo as cabeças das duas
crianças.

Já estava anoitecendo quando a mãe e as duas crianças saíram de casa. O menino, mais
novo, vestia calças curtas de tergal azul marinho, camiseta de malha com listas azuis,
amarelas e vermelhas e sapato de borracha Vulcabrás. A menina vestia saia de pregas
xadrez em tons de vermelho e azul, uma batinha branca de alcinhas e sandálias brancas
de tirinhas. A mãe estava com um vestido vermelho, tipo tubinho, e sandálias brancas.
De mãos dadas com a mãe, as duas crianças partiram para um mundo desconhecido
envoltos na alegria desmedida do domingo de carnaval.

No caminho para a estação de trens, a mãe comprou-lhes duas bisnagas de plástico que
cheias de águas com sabão seriam armas importantes nas batalhas do dia seguinte com
os outros irmãos e a meninada da vizinhança. Também lhes comprou dois martelos de
plástico que aos serem batidos contra alguém ou alguma coisa, fazia um barulhinho
agudo. Chegando à estação encontraram a plataforma cheia de palhaços, colombinas,
piratas, hawaianas, bate-bolas e tantas outras fantasias vestidas por homens, mulheres e
crianças. Havia, também, muitos, muitos homens vestidos de índio americano. A pedido
do menino, a mãe perguntou o nome do bloco do qual faziam parte e ficaram sabendo
que todos eram do Cacique de Ramos e que estavam indo para avenida ganhar do Bafo
da Onça. Os integrantes do Cacique começaram a cantar o samba do bloco e toda
plataforma foi contagiada pela alegria que saía daquelas gargantas carnavalescas.

Quando o trem chegou foi uma algazarra tremenda. Um mundo de gente invadiu os
vagões que já estavam apinhados. A cada momento uma marchinha ou um samba eram
lembrados e todos no vagão cantavam a mesma música até que fosse substituída por
outra tão ou mais empolgante. Uma velhinha, vestida de pistoleira, perguntou ao
menino onde ele estava indo. Quando soube que ele estava indo ver as escolas de
samba, a senhorinha começou a falar de forma entusiasmada sobre como era o desfile
na Avenida Presidente Vargas. Segundo ela, todas as escolas eram maravilhosas, os
sambas eram contagiantes e empolgavam as arquibancadas. Mangueira, Salgueiro,
Portela, Império Serrano, Unidos de Lucas, Em Cima da Hora… A velha foliã falava de
cada escola como se já tivesse desfilado em todas as alas. Falava de passistas, mestres-
salas e portas-bandeiras, baianas e abre-alas. Nesse quesito, dizia ela, ninguém superava
a Portela com sua águia altaneira, abrindo a avenida para a escola passar. A visão de um
pássaro sobrevoando uma avenida, gritando para o povo “Deixa a Portela passar!”,
encantou o menino que se imaginou voando com a águia e pousando magicamente no
meio da avenida para os aplausos do público nas arquibancadas.

Quando chegaram à Central do Brasil já era noite fechada. Fora da estação eles
passaram por carros alegóricos que já haviam desfilado. A mãe ficara sabendo que os
lugares nas arquibancadas eram pagos. Eles não tinham dinheiro para comprar as
entradas que também já estavam esgotadas. O jeito, segundo a mãe, era irem até a área
de concentração onde os componentes ficavam aguardando o inicio do desfile. Lá eles
poderiam ver os carros alegóricos e as fantasias, e a bateria tocava o samba-enredo para
“esquentar” os integrantes da escola.

Na concentração, espremidos entre grades de ferro, eles viram passar alas imensas:
baianas, índios, capoeiras… O cansaço batia forte, mas as duas crianças não queriam
arredar o pé daquele lugar. Em meio aquela multidão havia torcedores de todas as
escolas e todos, em absoluto, diziam que sua escolar seria a campeã. De repente a
notícia chegou provocando uma correria da multidão em direção às arquibancadas: a
entrada estava liberada!

A mãe pegou nas mãos das duas crianças e as arrastou em direção às arquibancadas
buscando uma entrada que tivesse menos tumultuada. Já havia passado por dois setores
quando vislumbrou uma entrada em que as pessoas subiam ordeiramente e para lá
caminhou célere arrastando as duas crianças. O menino tomou à frente e foi subindo os
degraus. Parecia que estava entrando em um túnel e que na outra ponta uma grande
luminosidade o esperava. Alguém passou por ele gritando: “É a Portela entrando na
avenida!” e subiu os degraus em disparada. O coração do menino se apertou e começou
a pulsar mais forte. Quando chegou ao alto da escada ele se viu no meio de uma
arquibancada totalmente lotada com pessoas em pé agitando bandeiras azuis e brancas e
foi então que ele ouviu a música cantada por uma arquibancada apaixonada:

“Portela! Portela!
O samba trazendo a alvorada
Meu coração conquistou”

O menino olhou para baixo e no meio da avenida, à frente da escola, vinha a águia
como que abrindo as asas para a escola passar. A Portela iniciou seu desfile e um mar
azul salpicado de espumas brancas coloriu a passarela. Extasiado, o menino a tudo
assistia, sem piscar os olhos, embalado por uma multidão que aplaudia e gritava a
plenos pulmões: “Já ganhou! Já ganhou!”

A escola passava diante dos seus olhos com seus carros alegóricos cheios de Tupã,
Jaçanã e cavalos montados por índias guerreiras, mostrando a exuberância da
Amazônia, e a bateria, simbolizando o rio-mar, arrancava aplausos entusiasmados
enquanto a multidão cantava em êxtase:

“A lua apaixonada chorou tanto
Que do seu pranto nasceu o rio-mar”

Na apuração do resultado, na quarta-feira de cinzas, a Portela sagrou-se campeã – o
último campeonato que ganhou sozinha. Naquela madrugada de segunda-feira, ao
passar pela avenida como um rio de águas cristalinas e borbulhantes, a Portela ganhou
mais do que um carnaval: ganhou o amor e a cumplicidade eternos de um torcedor que
jamais deixará de se emocionar ao vê-la desfilar a cada novo carnaval.

O Anjo que Apareceu do Nada

Os pingos da chuva açoitavam a lona da barraca em ritmo incansável. A luminosidade
opaca do dia pouco permitia ver o que acontecia do lado de fora. Eliseu consultou seu
velho relógio digital. Passava das sete horas. Acabara o descanso. Ainda dentro da
barraca, enrolou suas cobertas e as acondicionou em sacos plásticos, depois saiu e
iniciou o desmonte. Após desmontar a barraca, olhou para o posto de combustível do
outro lado da rua. Sua bicicleta ainda estava no mesmo lugar. Na noite anterior a
deixara presa a um poste por uma grossa corrente e um cadeado

Sem nenhuma pressa procurou em seus guardados a escova de dentes e o creme
dental, depois atravessou a rua para usar bica do lava-jato existente dentro do posto de
combustível. Após terminar sua higiene bucal, Eliseu meteu a cabeça em baixo do jato
de água e deixou que seus dreadlocks se molhassem. Após sacudir a cabeça para
escorrer a água, voltou para a calçada empurrando a bicicleta. Primeiro colocou sua
barraca no bagageiro e a amarrou com bastante força, depois colocou em cima sua
caixa de apetrechos onde guardava suas cobertas e as poucas roupas, além de uma
caneca de plástico, uma pequena panela de alumínio, uma colher grande, um garfo e
uma faca. Era tudo o que tinha e o que lhe permitia sobreviver nas ruas.

Há algum tempo vivia de pequenos biscates e, quando não aparecia nada para fazer,
catava latas de alumínio e as vendia em um centro de reciclagem. Não reclamava da
vida. Tinha aquilo que de fato merecia.

Depois de muito vagar pela cidade, encontrou aquele pequeno pedaço de tranquilidade
em Botafogo. Havia uma larga marquise que protegia a entrada de uma grande loja
que até aquele momento continuava sem ser ocupada. A calçada era limpa, não tinha
outros moradores de rua por perto e fizera amizade com os funcionários do posto de
combustível. Eles lhe permitiam tomar banho em suas dependências, pegar água para
fazer a comida e, pela manhã, escovar os dentes e lavar o rosto. Não sabia precisar há
quanto tempo estava naquele ponto. Já havia se acostumado com aquela
tranquilidade. Se cada um tinha o que merecia, ele tinha muito mais. Novos pingos de
chuva indicavam aquele seria um dia complicado. Ainda tinha uns trocados. Era hora
de passar na padaria, comprar um pãozinho e tomar um café.

Maria Cecília se equilibrava na ponta dos pés tentando enxergar um taxi no
emaranhado de carros que deslizavam pela Rua Visconde de Pirajá. Há pouco mais de
uma hora havia saído de sua casa no Alto Leblon para fazer uma mamografia solicitada
por sua médica. Ao chegar ao laboratório, descobriu que a máquina estava quebrada,
mas que poderia fazer o exame na filial da Rua General Polidoro em Botafogo. Ela
conseguiu que um taxi parasse e a levasse ao local. Depois de realizar o exame
consultou o relógio em seu pulso. Estava atrasada para sua aula de Pilates. Caminhou
apressada pela Rua General Polidoro em direção a Rua da Passagem onde imaginou
que seria mais fácil conseguir um taxi àquela hora da manhã que a levasse de volta ao
Leblon.

Enquanto seguia pela calçada disputou espaço com algumas bicicletas que fugiam da
ciclovia e teimavam em assustar os pedestres. Maria Cecília lembrou-se do tempo em
que morou em Paris para onde foi depois de uma longa temporada em Vancouver.
Depois de Paris morara em Londres e em Barcelona, sempre acompanhando Beto no
exercício de diversos cargos nas empresas da família dele numa longa preparação
para que ele assumisse as empresas da família. Um grupo empresarial dono de
grandes marcas de bebidas ao redor do mundo.

Conheceram-se na faculdade de economia onde ela entrara pensando em um dia ir
trabalhar no Banco Mundial. Queria ser uma cidadã do mundo. Estava sentada no
fundo da sala quando Beto entrou com seu cabelo louro e lindos olhos verdes. Ele
desviou-se das cadeiras da frente e sentou-se a seu lado. Foi paixão ao primeiro olhar.
Em pouco tempo se desencantara com o curso, mas para estar ao lado de Beto tornou-
se uma grande conhecedora de macroeconomia e sabia explicar em detalhes os
fundamentos da teoria dos jogos elaborada por John Nash. Após a formatura, casaram-
se e aceitaram ir para uma fabrica de cerveja em Vancouver onde eles começariam a
trabalhar como trainees.

A vida no Canadá foi muito cansativa. Em pouco tempo Beto assumiu a diretoria de
distribuição com a missão de criar uma nova logística para colocar a cerveja em cada
canto do país. Ela fazia estudos para acompanhar os hábitos de consumo da
população local. Após longos seis anos os dois foram para Chicago onde cursaram um
MBA em uma das mais prestigiosas universidades americanas. Depois do curso foram
para a Europa. À medida que Beto recebia maiores responsabilidades nas empresas
da família, eles se distanciavam. Ela queria filhos e sentia saudades da mãe. Aos
poucos a situação ficou insustentável e o amor acabou.

O divórcio lhe trouxe paz de espírito e a estabilidade financeira. Beto foi um grande
amigo. Além do patrimônio que os dois haviam construído e que foi dividido meio a
meio, ele lhe deu um lote generoso de ações da holding que lhe davam a certeza de
que não teria problemas financeiros.

Estava há um ano no Rio de Janeiro morando na casa que havia comprado com Beto
no Alto Leblon e que na partilha dos bens ficara com ela. Trabalhava na montagem de
uma ONG. Maria Cecília queria ajudar aos mais pobres a transformarem suas vidas.
Sua ideia era criar oportunidade de emprego e renda para um elemento da família e
esse possibilitar oportunidades para os outros membros. Enquanto o projeto não se
materializava preenchia seu dia com aulas de Pilates e caminhadas pela orla do
Leblon.

Com a cabeça tomada pelas recordações, Maria Cecília viu um taxi parando a poucos
metros para deixar passageiros. Decidida a não perdê-lo acelerou os passos
atravessando a rua sem olhar para trás. Estava no meio da rua quando o barulho de
uma freada violenta lhe paralisou. Ela olhou para trás e se deparou com um caminhão
de lixo deslizando em sua direção sem lhe dar tempo para reagir. Seu coração
acelerou e ela levantou os braços para proteger o rosto na vã tentativa de escapar da
tragédia.

Eliseu encostou sua bicicleta ao lado da porta da padaria e foi tomar seu desjejum. O
cheiro forte do café lhe remeteu ao tempo em que tinha uma casa e uma família. Tivera
uma boa educação, cursara uma boa faculdade, mas as más companhias e a
perspectiva do dinheiro fácil o levaram para o mundo do crime. Começou pegando
pequenas quantidades de cocaína para vender nas festinhas da faculdade. Em pouco
tempo era o traficante preferido dos playboys da zona sul. O dinheiro começou a entrar
e ele pôs em mente que seria o traficante mais respeitado do Rio de Janeiro. Tinha
tudo para dar certo. Era inteligente, não consumia drogas e havia feito contato com um
integrante das forças de libertação de um país vizinho, grande produtor de pasta de
cocaína. Sim, pensou na época, ele seria grande, bandido nenhum se meteria na sua
frente.

Durou pouco a iniciativa de Eliseu. As facções do crime ficaram sabendo de um cara
que ameaçava tomar conta da distribuição de drogas no Rio de Janeiro e armaram
para que a polícia o pegasse em flagrante. Eliseu foi preso ao receber um
carregamento de uma tonelada de pasta de cocaína. Perdeu tudo. Seu pai lhe virou o
rosto quando soube de onde vinha o dinheiro do filho. Sua mãe tentou contemporizar,
mas o velho o renegou. A justiça lhe tomou todos os bens que havia comprado com o
dinheiro do tráfico. Pagou os advogados para conseguir uma pena menor e ficou sem
um tostão no bolso. No presídio ficou isolado. Todas as três fações existentes na
cadeia queriam sua cabeça. Foram oito anos, até sair na condicional. Há quatro anos
havia saído da prisão prometendo para si que jamais voltaria para aquele lugar e
estava cumprindo.

Quando saiu da prisão procurou sua mãe, mas ela havia morrido. Não quis encontrar
seu pai e fugiu de sua irmã. Tinha vergonha do que os fizera passar e jurou que daria a
volta por cima. Sem lugar para ficar, acabou indo morar nas ruas.

Eliseu acabou de comer o pão e tomou o último gole de café. Colocou a xicara no
balcão e se despediu da atendente. Preparava-se para montar na bicicleta, mas foi
interrompido pelo barulho provocado por uma freada brusca. A poucos metros um
caminhão de lixo ia ao encontro de uma mulher paralisada no meio da rua. Gritos para
que ela saísse da rua foram ouvidos, mas parecia que o medo a deixara sem reação.

Foi automático. Eliseu largou a bicicleta e se lançou ao meio da rua pegando a moça
pela cintura e caindo com ela a centímetros da sarjeta. Os pneus do caminhão
passaram rentes a sua cabeça e suas narinas foram invadidas com o cheiro forte de
borracha fritando no asfalto. O caminhão parou a poucos metros deles e varias
pessoas correram em seu socorro. Tremendo muito, a moça custou a se levantar.
Alguém a levou para a calçada e uma cadeira apareceu trazida não se sabe de onde.
Ela sentou-se e bebeu um copo de água que se materializou na sua frente. Eliseu
percebeu que a moça estava se recuperando e saiu discretamente no grupo que se
reuniu em volta da quase acidentada. Eliseu levantou sua bicicleta ainda jogada na
calçada, montou e seguiu pela Rua da Passagem em direção ao Túnel Novo em busca
de seu sustento diário.

Maria Cecília bebeu a água que lhe deram em pequenos goles. Suas mãos tremiam
sem parar e a respiração ofegante demorou em se recompor. Olhou para todos em sua
volta e não reconheceu seu salvador.

– Onde está o rapaz que me salvou?

As pessoas olharam entre si e alguém disse que ele havia ido embora. Ela queria
agradecer.

– Ele é um morador de rua – disse um moreno forte – e está sempre por aqui.
Já refeita do susto, Maria Cecília levantou-se e pegou um taxi de volta para casa.
Naquele dia ela não conseguiu pensar em nada mais que não fosse aquele quase
acidente. Por mais que tentasse não conseguia entender as razões que levam uma
pessoa a colocar a própria vida em risco para salvar outra, totalmente desconhecida.
Haviam dito que aquele homem era um sem teto. Ela começou a imaginar que poderia
ajudá-lo de alguma maneira. Talvez ele aceitasse algum dinheiro ou outra recompensa
qualquer.

No dia seguinte Maria Cecília não foi para sua aula de Pilates. Pegou um taxi próximo a
sua casa e pediu para ir para Botafogo. Eram quase oito horas da manhã quando
chegou ao local onde quase fora atropelada. Andou em várias direções tentando
encontrar seu salvador, sem qualquer sucesso.

Maria Cecília voltou muitas vezes a Botafogo na esperança de encontrar-se com
aquele homem que lhe salvara de uma tragédia. Um dia chegou à padaria por volta das
sete e meia da manhã e o atendente lhe disse que o sujeito que se jogara na frente do
caminhão para lhe salvar havia tomado café e saído a poucos minutos. Outra vez o
frentista do posto de combustível lhe informou que o rapaz não aparecia há alguns
dias, mas que sempre armava uma barraca do outro lado da calçada para dormir. Nas
noites em que decidiu ir até lá para encontra-lo, houve sempre um desencontro.
Pensou em desistir de sua busca. Ele era apenas um anjo que apareceu para lhe fazer
um bem e voltou para o céu, ou partiu para ajudar a outras pessoas. Por alguns dias
se conformou com esse pensamento, mas depois sempre dava um jeito de passar por
Botafogo na esperança de encontrar o seu anjo.

Eliseu parou sua bicicleta na mureta do Quadrado da Urca. Muitos barcos ancorados
esperavam solitários que alguém aparecesse para ligar seus motores e leva-los para o
mar. Ele ficara profundamente impressionado com os olhos castanhos da moça que
salvara de ser atropelada. Para fugir de um possível encontro, Eliseu ficou uns dias
trabalhando à noite na Lapa. Quando voltou a Botafogo, um cara no posto de
combustível lhe avisou que a tal moça estava lhe procurando. Ela não dissera para
quê. O frentista também não perguntou.

Fechou os olhos e a brisa salgada trazido do mar se misturou com o perfume que
sentiu exalando do corpo dela naquele dia. Há muito tempo não aquelas sensações:
aperto no peito, boca seca, as mãos tremulas só de pensar em encontrá-la. Aquilo tudo
era uma grande bobagem, pensou Eliseu, pois até que recuperasse sua dignidade não
poderia voltar a sentir amor por uma mulher, mas como sonhava em sentir novamente
aquele perfume inebriante.

Quando soube que ela o procurava sentiu um misto de curiosidade e prazer, mas
depois caiu na real. Aquela mulher queria apenas recompensá-lo por salvar a sua vida
talvez lhe dando alguns trocados. Era certo que ela tinha muito dinheiro. As roupas, o
perfume, a elegância no caminhar, eram coisas de quem vinha de berço. Tudo o que
ele um dia tivera, mas jogara na sarjeta. Agora estava ali curtindo um amor platônico.

Para fugir daquele encontro indesejável, Eliseu estava dormindo cada noite em um
local diferente. Isso era muito ruim, pois não adormecia por completo com receio de
que outros sem teto lhe levassem as poucas coisas que possuia. Estava na hora de
voltar a dormir em frente ao posto de combustivel. Se aquela mulher aparecesse ele
seria rude. Recusaria seu dinheiro e diria que faria aquilo por qualquer um e por isso
ela não deveria se considerar especial ou em divida com ele. Ela deveria seguir seu
caminho, ter mais atenção ao atravessar a rua e esquecê-lo para sempre. Sim, era isso
que iria fazer.

A noite para Maria Cecília havia sido agitada. Sonhou que caia em um poço sem fundo
e no meio da queda era segura pela mão de um anjo. Acordou com os músculos
cansados e a boca seca. Levantou-se e foi até a cozinha beber um copo de água.
Nessas horas sentia falta de sua mãe, mas optara por ficar sozinha. Talvez fosse
melhor voltar a viver com seus pais. Abandonou essa ideia ao lavar o copo e guardá-lo
no armário. Perderia sua privacidade e ainda queria curtir aquele período de pós-
divorcio sozinha. Voltou para a cama e logo adormeceu. Novamente aquele homem lhe
surgiu salvando-a de um naufrágio. Pela manhã, Maria Cecília arrumou-se e saiu de
casa com o firme proposito de encontrar aquele homem. Tinha que acabar com aquela
angustia e voltar a ter uma noite de sono tranquila. Pediu ao taxista para deixá-la no
posto de combustível no inicio da Rua da Passagem. Pagou a corrida e desceu
apressada. Olhou para a calçada onde lhe haviam dito que o anjo ficava, mas nada
havia que lhe desse a certeza de que alguem dormira naquele local. Falou com o
frentista que já lhe conhecia e foi informada que Eliseu havia dormido ali, mas fora
embora muito cedo. Agora seu anjo tinha um nome e não era o que havia imaginado.
Eliseu com certeza não era nome de anjo, mas lhe salvara a vida.

Quando saiu da cadeia, Eliseu tentou arrumar um emprego como desenvolvedor de
software, mas sempre que lhe pediam para explicar porque havia ficado fora do
mercado de trabalho por oito anos e respondia que havia sido preso por tráfico de
drogas as portas se fechavam. Em algumas vezes pensou em mentir, mas havia jurado
para si que arrumaria um emprego contando sem esconder que era ex-presidiário.
Após muitas tentativas, desistiu. Era difícil vencer o preconceito. A saída, pensou, seria
passar em um concurso público. Com essa decisão, começou a estudar e fazer várias
provas. Do pouco dinheiro que conseguia, reservava algum para acessar a internet em
uma lan house qualquer. Lá ele conseguia estudar, acessar sites de concursos e ficar
sabendo da abertura de inscrições. Há mais de um ano que havia passado para o
cargo de analista de sistemas em uma grande empresa estatal. Sonhava todo dia com
a convocação. Explicara sua intenção para o gerente do posto de combustível em
frente ao local onde dormia e ele o deixou usar o endereço do posto para contato. Sua
vida iria mudar. Ele poderia voltar para a casa do pai como um regenerado. Seria sua
volta do fundo do poço.

Se aquela mulher tivesse aparecido em sua vida com ele já empregado, pensou Eliseu,
a estória poderia ser diferente. Ele teria algo para oferecer e não haveria do que se
envergonhar. Mas o telegrama para se apresentar na empresa não chegava e ele
continuava levando uma vida miserável nas ruas. Daquele jeito não poderia sonhar em
encontrar aquela mulher. Ela zombaria dele, sentiria medo em estar ao lado de um ex-
presidiário. Quando soubesse, então, que ele havia sido traficante de drogas, fugiria
sem tomar conhecimento de seu amor. De nada adiantava sonhar com o impossível.
Jamais uma mulher como aquela se apaixonaria por ele. Em pouco tempo ela se
esqueceria do acidente e deixaria de procurá-lo. Ele continuaria na espera por sua
redenção. Pensando assim, Eliseu decidiu que era hora de se afastar um pouco de
Botafogo e ir para Laranjeiras.

Maria Cecília estava debruçada sobre dezenas de papeis espalhados sobre a mesa.
Finalizava seu plano de negócios para iniciar o trabalho com sua ONG. Conversara
com Beto sobre sua iniciativa. Ele disse que ela poderia contar com sua ajuda. Seus
olhos se voltaram para o documento aberto no computador. Precisava fazer algumas
correções. Mal iniciou o trabalho foi interrompida pelo toque do telefone. A imagem de
sua mãe na tela do celular identificou a chamada.

– Oi, mãe, tudo bem?

– Tudo. Estamos preocupados com essa estória de você ficar procurando mendigo
pelas ruas.

– Mãe, Eliseu não é mendigo…

– Ah, o sem-teto já tem um nome? Foi você quem deu ou ele se apresentou?

– Nem uma coisa nem outra. O cara lá do poso de combustível me disse que esse é o
nome dele.

– Filha, deixa isso para lá… Olha, se você quer agradecer, compra umas cestas-
básicas, passa lá na igreja do padre Jorge e deixa com ele para distribuir entre os
pobres. Faça isso, você vai se sentir melhor.

– Mãe – disse Maria Cecília querendo mudar de assunto – estou terminando o plano de
negócios da ONG. Falei com Beto e ele me disse que vai ajudar. Agora é começar a
procurar uma casa para a sede.

– Minha filha, deixa disso… Você tem um currículo invejável, trabalhou em muitos
países… Fez cursos nas melhores escolas de economia dos Estados Unidos. Pensa
bem, você nem precisa de indicação de seu pai ou de seu ex-marido. Você é muito boa
no que faz e vai conseguir um bom emprego.

– Mãe, eu já decidi. Vou abrir a ONG e se não der certo, volto a trabalhar como
economista. Emprego não vai me faltar, aqui ou lá fora.

– Está bem, mas depois não diga que eu não lhe avisei.

A mãe de Maria Cecília desligou o celular e ela voltou sua atenção para fechar o plano
de negócios. Tinha acabado de corrigir os valores necessários ao investimento para
iniciar as atividades quando o telefone tocou novamente. Maria Cecília não conseguiu
identificar a chamada, mas atendeu mesmo assim.

– Alô?

– Maria Cecília, aqui é Isabele da Só Imóveis. Estou ligando porque encontrei um
casarão em Laranjeiras que tem o espaço ideal para você. Está em excelente estado
de conservação. O espólio foi concluído e os herdeiros querem vender o mais rápido
possível. Você vai fazer um excelente negócio.

– Me passa o endereço – disse Maria Cecília – Amanhã, lá pelas dez, a gente se
encontra no local.

O dia amanheceu com um azul muito claro. O sol de outono aquecia a quem ainda
mantinha o corpo frio naquela hora da manhã. Maria Cecília desceu do taxi em frente
ao casarão que a corretora havia lhe indicado. Por fora dava a impressão de ser muito
amplo. Ela ficou encantada com a expectativa de fazer daquele local a sede da sua
ONG.

Com a chegada da corretora, as duas entraram no casarão e Maria Cecília pôde
constatar que estava bem conservado, apesar de precisar de uma pequena reforma.
Lembrou-se de sua prima Daniele que havia feito o projeto da casa que comprara com
Beto. Era aconchegante, clean e extremamente prático. “Sim”, pensou Maria Cecília,
“Daniele vai fazer um excelente trabalho com esse casarão”.

Saindo da visita ao imóvel, Maria Cecília combinou com a corretora que enviaria uma
proposta financeira assim que chegasse em casa. Passava das onze horas e seu
estomago reclamou por uma refeição. Ela decidiu procurar um restaurante. Sem muita
pressa ela caminhou pela Rua das Laranjeiras em direção ao Largo do Machado.
Procurando algum local para almoçar, seus olhos foram guiados para o outro lado da
rua. Quase não acreditou quando viu Eliseu passando de bicicleta. Maria Cecília
desafiou os carros e atravessou a rua tentando alcança-lo, mas ele se distanciou sem
dar mostras de que ouvira alguém chamá-lo. Arfando, se apoio em um muro e enxugou
o suor que escorria de sua testa. Perdera a fome. Tudo o que queria era chegar à sua
casa e se jogar em sua cama. Tanto tempo buscando seu anjo e ele lhe escapava no
momento em mais estivera perto de encontrá-lo.

Após alguns minutos em que recuperara o folego, Maria Cecília continuou andando em
direção ao Largo do Machado. Pegaria o metrô até Ipanema. Faltava pouco para
chegar à estação. Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Glória viu os carros
pararem no sinal fechado e apressou o passo para atravessar. Ao chegar do outro lado
da pista parou ao ver um homem sentado ao lado de uma bicicleta com um livro nas
mãos. “Não”, disse Maria Cecília para si, “aquele cara não era comum. Que outro
sujeito estaria naquele momento lendo tranquilamente enquanto tudo ao seu redor
girava como um caleidoscópio?”

Como se Eliseu fosse um passarinho que pudesse levantar voo ao ouvir um barulho
qualquer, Maria Cecília se aproximou cautelosa. Seu rosto ardia como se uma chama
tivesse tomado conta de seu corpo. Ao mesmo tempo, suas mãos tremiam e o coração
dava mostras de que sairia pela boca. Não sabia como ele iria reagir, mas não poderia
perdê-lo de vista outra vez.

– Oi.

Eliseu levantou a cabeça e abriu um sorriso.

– Oi…

– Meu nome é Maria Cecília, lembra de mim?

– Lembro… como você está?

– Bem – disse Maria Cecília em frente a Eliseu como se quisesse impedir sua fuga –
Estive te procurando esse tempo todo… Fui lá no posto, na padaria, andei pelas ruas
de Botafogo…

– E o que você quer de mim?

– Queria lhe agradecer e…

– Não foi nada – cortou Eliseu.

– Eu sei que talvez você esteja pensando algo errado a meu respeito e…

– Não estou pensando nada a seu respeito, quer dizer: acho que você tem que ter mais
cuidado ao atravessar as ruas – Eliseu finalizou a frase com um novo sorriso.

– Eu estou com fome – disse Maria Cecília – podemos tomar um suco?

– Infelizmente não tenho como pagar um suco para você.

– Não seja por isso – disse Maria Cecília – mais segura de si – você é meu convidado.
Vamos?

Sem alternativa, Eliseu pegou sua bicicleta e seguiu Maria Cecília até um bar com as
cadeiras na calçada. Os dois sentaram-se em uma das mesas e Eliseu fez sinal ao
garçom que foi ao seu encontro com a cara amarrada deixando claro que ele não era
bem-vindo àquele local.

– Dois sucos de laranja – disse Maria Cecília desarmando o espirito do garçom que
parecia disposto a espantá-los do restaurante.

Após beber um gole do suco que o garçom lhes trouxera, Maria Cecília mirou os olhos
de Eliseu e lhe disse em voz baixa, quase acanhada.

– Além de lhe agradecer, eu gostaria de saber o que posso fazer para retribuir a sua
generosidade.

– Já lhe disse que você não me deve nada. O que fiz por você, faria por outro qualquer.
As palavras ásperas de Eliseu arranharam o coração de Maria Cecília. Ela não
esperava que ele fosse aceitar sua ajuda de imediato, mas também não contava com
aquela rudeza. De qualquer forma não poderia desistir depois de tanto tempo tentando
encontrá-lo.

– O que você faz para sobreviver? – quis saber Maria Cecília.

– Cato latas, faço pequenos biscates…

– Você já tentou procurar um emprego?

– Olha, moça…

– Maria Cecília, esse é o meu nome…

– Bem… Maria… Cecília, eu sou ex-presidiário. Fiquei preso oito anos por tráfico de
drogas. Paguei minha pena, mas ninguém quer dar oportunidade para um ex-
condenado…

Aquelas revelações fizeram Maria Cecília lembrar-se dos conselhos de sua mãe. Ela
tinha razão, romanceara demais aquele encontro, mas talvez fosse a oportunidade que
estava procurando para começar seu trabalho social.

– Escute – disse Maria Cecília com o olhar cumplice – estou começando um trabalho
social que tem por objetivo inserir pessoas no mercado de trabalho e com isso provocar
transformações no seu núcleo familiar.

– Não dá – disse Eliseu – não tenho família.

– Tá – disse Maria Cecília – mas me deixa te ajudar de alguma forma…

– Já disse que você não me deve nada – tornou a dizer Eliseu.

– Não se trata de pagamento… se assim fosse eu poderia lhe pagar muito bem, mas
não é isso…

– E o que é então?

– Trata-se de retribuir da tua ajuda. Você foi muito legal comigo… eu posso te ajudar, o
que custa você deixar?

Eliseu ficou calado mirando o infinito. Maria Cecília tentava adivinhar o que se passava
na cabeça de seu anjo, mas tinha certeza de que nem de longe poderia chegar perto.
Agora que o tinha à sua frente, reparou que ele tinha olhos verdes. Os cabelos louros
armados em dreadlocks denunciavam que um dia ele teria sido surfista. Os dentes
eram alvos, bem cuidados e apesar das roupas puídas, estava limpo e exalava um
cheiro bom. As mãos eram fortes, os dedos longos e as unhas bem cuidadas. A barba
pouco espessa denunciava que ele não deveria ter mais do que trinta e cinco anos. A
boca foi a parte do rosto que mais chamou a atenção de Maria Cecília. Os lábios eram
finos, bem desenhados, avermelhados. Ela se pegou imaginando seu beijo, mas antes
que sentisse o sabor foi interrompida por Eliseu.

– Olha, eu realmente não preciso de nada. Quando sai da cadeia e tive dificuldades
para arrumar emprego decidi fazer concurso público, pois não precisa de experiência.
Eu estudei, fiz faculdade… era para eu estar muito bem de vida, mas quando a gente é
jovem acredita que as besteiras que fazemos não terão consequências… quando me
pegaram, eu já estava formado e trabalhando. Fui preso e perdi tudo, menos o meu
diploma, esse ninguém me tira.

– E você conseguiu aprovação em algum concurso?

– Sim, eu passei para analista de sistemas em um estatal. Estou somente aguardando
me chamarem.

– E como vão te encontrar? Você não tem endereço fixo… você pode até perder essa
vaga…

– Não tem esse risco não. Meu endereço é o do posto de combustível lá em Botafogo,
além disso, eu acompanho as convocações pela internet.

– Mas quando te chamarem, como você vai comprar roupas para trabalhar?

– Do que consigo arrumar, guardo um pouco de dinheiro para quando chegar a hora.
Maria Cecília não parava de se surpreender com Eliseu. Que força de vontade aquele
homem tinha, pensou ela decidida a ajuda-lo de qualquer maneira.

– Olha, moro em uma casa e nos fundos tem um quarto de empregado que não é
utilizado há muito tempo. Você pode ficar lá até começar a trabalhar e ter dinheiro para
sair, o que acha?

– Vou pensar – disse Eliseu – na próxima vez que a gente se encontrar te dou a
resposta.

– De jeito nenhum – disse Maria Cecília – faz três meses que estou te procurando e não
vou te perder de vista de novo.

– Você não me conhece direito, não sabe de verdade quem eu sou – disse Eliseu.

– Sei que você é o cara que salvou minha vida e isso me basta. Se você me roubar,
não tem problema. Trabalho e compro tudo de novo. Vou avisar meus pais e meu
irmão que você irá morar lá em casa, para que eles não se assustem e você pode me
pagar à estadia cuidando do jardim, lavando meu carro, levando meu cachorro para
passear… viu, não vai ser de graça – finalizou soltando um grande sorriso.

Maria Cecília chamou o garçom e pediu a conta. Aquele anjo não iria mais lhe escapar.

Eliseu aceitou a proposta de Maria Cecília e passou a acreditar que Deus olhava por
ele. Estava perto da mulher por quem havia se apaixonado, tinha uma cama
confortável para dormir e aceitara o trabalho como caseiro. Cuidava do jardim e
diariamente saía com o labrador Theo para passear. Quando chegou à casa de Maria
Cecília, viu que era rica de verdade. Ninguém morava no Alto Leblon se não tivesse
muito dinheiro. Ela lhe contou que a casa fora a sua parte na partilha do divórcio e que
seu ex-marido era um grande empresário. Todas essas revelações lhe deram a certeza
de que jamais teria aquela mulher nos braços. Era um amor impossível. Mesmo que
fosse trabalhar na estatal nunca teria condições proporcionar aquele conforto, mas
sentia-se feliz em estar próximo dela, sentir seu perfume e sonhar com seu corpo
macio todas as noites.

Passados alguns meses, Eliseu voltava de um passeio com o labrador e entrou na
casa para entregá-lo como sempre fazia. Ao entrar na sala ouviu uma discussão. Os
gritos vinham da cozinha. Duas mulheres duelavam sobre sua permanência na casa.
Uma das vozes pertencia a Maria Cecília, a outra era da mãe dela. Paralisado, Eliseu
acariciava o cachorro enquanto a discussão continuava na cozinha. A voz de Maria
Cecília denunciava sua irritação.

– Eu não vou abrir mão dele. Sou uma mulher independente e sei muito bem me
proteger. Não preciso de ninguém para cuidar de mim.

– Filha, você não entende que só estamos preocupados com vocês.

– Já disse que não preciso que ninguém se preocupe comigo!

– Você mesma disse que esse rapaz era traficante. Quem nos garante que ele não
continua no mundo do crime, distribuindo drogas de bicicleta pela cidade. Você já
pensou nisso?

– Não, não pensei porque isso é absurdo. Eu confio nele, é estudioso, trabalhador, fez
besteiras, pagou e agora quer mudar de vida, você não pode acreditar que existam
pessoas assim?

– Não, não acredito. Ele está de olho no seu dinheiro. Está aqui tomando pé da
situação e um belo dia quando você chegar não vai ter nem a fechadura. Abre os olhos
Maria Cecília!

– Abre os olhos você, mãe! – Maria Cecília parecia fora de si – A casa é minha, o
dinheiro é meu e a vida é minha. Quem está correndo os riscos sou eu. Vocês não têm
nada com isso. Me deixem em paz!

Eliseu pensou em partir em socorro a Maria Cecília, mas sabia que sua presença iria
deixar a situação mais complicada ainda. Com medo de ser pego dentro da casa,
apressou-se a sair e foi para a garagem. De lá viu quando a mãe de Maria Cecília saiu
batendo o portão. Decidiu falar com sua amada, mas foi ultrapassado pelo labrador. Ao
entrar na casa ouviu choro vindo da cozinha, mas não teve coragem consolar a mulher
que amava. A mãe dela tinha razão. Não havia nada que pudesse a oferecer, a não ser
um passado de crimes. Não poderia afastá-la de sua família. A situação clareou diante
de Eliseu. Ele não a deixaria pagar um preço tão alto somente para ajudá-lo. Eliseu deu
meia-volta e foi para seu quarto, pegou suas coisas, colocou sobre a bicicleta e saiu da
casa sem que Maria Cecília percebesse. Eliseu sumiu entre os carros que iam em
direção à Gávea. Nunca mais sua amada iria sofrer por querer ajudar um ex-
presidiário.

A escuridão tomou conta dos cômodos da casa anunciando que a noite estava
chegando. Maria Cecília estranhou o fato de Theo ter entrada em casa sem que Eliseu
tivesse vindo para lhe falar. Então se deu conta de que ele poderia ter retornado do
passeio com o cachorro e ouvido as palavras ditas por sua mãe. Seu corpo foi
assombrado por um arrepio. Ela levantou-se num arroubo e correu para o quarto de
Eliseu temendo que ele tivesse ido embora. A porta aberta e a luz apagada lhe deram a
certeza de que ele ouvira as palavras de sua mãe.

Maria Cecília entrou em casa para buscar as chaves de seu carro. De posse delas
entrou no veículo de saiu de casa em direção a Botafogo. Tinha esperança de
encontrá-lo em sua barraca armada em frente ao posto de combustível.

Eliseu não estava em Botafogo. Ela foi até Laranjeiras, mas também não o encontrou.
Rodou com o carro até altas horas da noite passando pelos locais que ele costumava
frequentar, mas foi em vão. Voltou para casa chorando. Sua mãe havia conseguido seu
objetivo. Afastara Eliseu de sua vida. Ela agora estava novamente só.

Após aquela noite, Maria Cecília voltou muitas vezes aos locais onde imaginava poder
encontrar o anjo que salvou da morte, mas em todas retornou com o fracasso
estampado no rosto. Foram dias de choro e dor em que maldisse a sorte de não
encontrá-lo. Sentia sua falta. Poderia ter lhe dito que o amava e que nada iria afastá-
los, mas teve medo de não ser correspondida. Após três meses de intensa procura,
Maria Cecília começou a acreditar que nunca mais encontraria Eliseu. Havia perdido a
única chance de ser realmente feliz com alguém que se importava com ela de verdade.

Há mais de um ano que Maria Cecília perdera o contato com Eliseu. Com muito
trabalho conseguiu colocar para funcionar a sua ONG e seu programa de
oportunidades contava com mais de vinte famílias assistidas. Ela fechou acordos com
algumas empresas para priorizar a contratação das pessoas assistidas pelo sua ONG.
O programa estava se mostrando um grande sucesso. Precisava fechar mais acordos,
aumentar a oferta de novas vagas e com isso atender um número maior de pessoas e
fazer a roda do desenvolvimento familiar girar com maior velocidade.

Naquela manhã havia recebido um telefonema. Um diretor de recursos humanos de
uma distribuidora de refrigerantes se dispunha a oferecer emprego para os indicados
por Maria Cecília. Estava tudo acertado, faltava somente assinar o contrato. Para isso
ela marcou uma reunião no centro da cidade. Ela pegou um taxi e pediu para ir para o
Centro, próximo ao Largo da Carioca.

Maria Cecília pediu para o taxi parar na esquina das Avenidas Rio Branco e Almirante
Barroso. Faltavam poucos minutos para a reunião e ela não queria chegar atrasada.
Desceu o carro ainda com a carteira na mão de onde tirou o dinheiro para pagar a
corrida. Ao tentar guardá-la na bolsa, atrapalhou-se e deixou cair o envelope com o
contrato. Soltou uma praga e se abaixou para pegá-lo, mas outra mão se adiantou e o
pegou. Ela levantou os olhos para agradecer a gentileza e seu corpo ficou paralisado
pelo inusitado daquela situação. A boca entreaberta entre o espanto e incredulidade
não conseguia articular uma palavra. Como se tivesse aparecido do nada, Eliseu lhe
estendia o envelope com aqueles os olhos verdes que a hipnotizavam. Sim, ele estava
ali. O seu anjo havia caído do céu novamente. Maria Cecília se jogou nos braços de
Eliseu e colou sua boca na dele em um beijo carregado de saudade. Aquele anjo era
seu e nunca mais o deixaria partir.

O ano surge da boca do mar

Não se lembrava há quanto tempo tinha esse ritual incorporado ao seu novo ano. O fato é
que ele existia por si só e isso, mais do que uma obrigação ou um dever, tinha se tornado
para ela um prazer. O que lhe daria tanta alegria quanto estar ali, naquele momento,
celebrando seu reencontro com a vida? Não sabia. Talvez, quando tivesse essa medida de
intensidade, esse momento único que lhe acontecia uma vez por ano se tornasse ainda mais
significante e fosse a raiz de tudo que se lhe apresentasse no futuro.

Foi em 2000? Antes ou depois? Não importa. Na verdade tem para si que desde sua tenra
idade isso já assim se procedia, só que não tinha consciência da importância e do
significado que esse momento teria para sua vida.

Já havia se passado cinco dias do ano de 2007 e somente agora, para ela, ele iria começar. É
um calendário todo próprio, derivado do Juliano, mas com algumas particularidades. Não
tem dia certo para iniciar. Pode ser dia primeiro ou sete. Pode ser em janeiro ou até mesmo
março. Além disso não, porque não suportaria tanta ausência do mar. O que é essência
nisso tudo é que seja um dia de sol forte e céu azul, limpo ou com raras nuvens no céu. O
ano novo começava no primeiro dia em que ela pudesse ir ver o mar de dentro do Caminho
do Bem-te- vi, sentada sobre a sua pedra favorita. Ali, de olhos fechados, sentido o sal do
mar lhe invadir o peito e se depositar em sua derme, ela comemorava um novo ano.

Fora difícil encontrar uma vaga para estacionar. A Urca esta cada vez mais, como todo Rio,
inundada de carros e hoje, sábado, a procura desse recanto é cada vez maior.

Agora ela estava ali, sentada numa pedra, de frente para a entrada da Baía de Guanabara.
Ver aquela entrada, que se assemelha a uma grande boca tragando as águas límpidas do mar
aberto, como a tentar expulsar as águas fétidas que em alguns pontos banham as sua praias,
é fascinante. E esse céu azul, sem nuvens, em contraste com o verde da mata que circunda o
morro do Leme, faz a água parecer mais azul e a espuma branca que se forma quando ela
banha as pedras, brilha com mais intensidade.

É assim, admirando esse mar imenso se estreitando para depois se expandir e banhar as
praias que vão da Urca à Magé, no fundo da baía, que ela considerava que o ano realmente
começara, era novo!

Ali, sentada na pedra, ela rememorava tudo que lhe acontecera no ano que findara. O que
lhe fizera crescer, o que aprendera, aonde errara e o que deixara de fazer. Ali, numa
conversa entre ela e o mar, havia uma prestação de contas, íntima e pessoal, onde não há
lugar para reprimendas nem lamentos. É uma forma de celebrar a vida, pois essa menina, a
vida, não deve ser importunada com lembranças ruins.

Nada a Fazer

Os pingos da chuva açoitavam a lona da barraca em ritmo incansável. A luminosidade
opaca do dia pouco permitia ver o que acontecia do lado de fora. Eliseu consultou seu
velho relógio digital. Passava das sete horas. Acabara o descanso. Ainda dentro da
barraca, enrolou suas cobertas e as acondicionou em sacos plásticos, depois saiu e
iniciou o desmonte. Finalizada a tarefa, olhou para o posto de combustível do outro
lado da rua. Sua bicicleta ainda estava no mesmo lugar. Na noite anterior a deixara
presa a um poste por uma grossa corrente e um cadeado

Sem nenhuma pressa procurou em seus guardados a escova de dentes e o creme
dental, depois atravessou a rua para usar bica do lava-jato existente dentro do posto de
combustível. Após terminar sua higiene bucal, meteu a cabeça em baixo do jato de
água e deixou que seus dreadlocks se molhassem. Sacudiu a cabeça para escorrer a
água e voltou para a calçada empurrando a bicicleta. Em poucos minutos levantou
acampamento, colocando no bagageiro da bicicleta todos os seus pertences.

Maria Cecília se equilibrava na ponta dos pés tentando enxergar um taxi no
emaranhado de carros que deslizavam pela Rua Visconde de Pirajá. Há pouco mais de
uma hora havia saído de sua casa no Alto Leblon para fazer uma mamografia. Ao
chegar ao laboratório, descobriu que a máquina estava quebrada, mas que poderia
fazer o exame na filial de Botafogo. Ela conseguiu que um taxi a levasse ao local.
Depois de realizar o exame consultou seu relógio. Estava atrasada para sua aula de
Pilates. Caminhou apressada pela Rua General Polidoro em direção a Rua da
Passagem onde imaginou que seria mais fácil conseguir um taxi que a levasse de volta
ao Leblon.

Enquanto seguia pela calçada, disputava espaço com algumas bicicletas que fugiam da
ciclovia e teimavam em assustar os pedestres. Maria Cecília lembrou-se do tempo em
que morou em Paris para onde foi depois de uma longa temporada em Vancouver,
Londres e Barcelona, sempre acompanhando Beto no exercício de diversos cargos nas
empresas da família dele.

Conheceram-se na faculdade de economia onde ela entrara pensando em um dia ir
trabalhar no Banco Mundial. Queria ser uma cidadã do mundo. Estava sentada no
fundo da sala quando Beto entrou com seu cabelo louro e profundos olhos verdes. Foi
paixão ao primeiro olhar.

A vida no Canadá era muito cansativa. Em pouco tempo, Beto assumiu a diretoria de
distribuição com a missão de criar uma nova logística para colocar a cerveja em cada
canto do país. Ela fazia estudos para acompanhar os hábitos de consumo da
população local. Após longos seis anos, os dois foram para Chicago cursar um MBA.
Depois do curso foram para a Europa. À medida que Beto recebia maiores
responsabilidades nas empresas da família, eles se distanciavam. Ela queria filhos e
sentia saudades da mãe. Aos poucos a situação ficou insustentável e o amor acabou.

Com a cabeça tomada pelas recordações, Maria Cecília avistou um taxi parando a
poucos metros para deixar passageiros. Decidida a não perdê-lo acelerou os passos
atravessando a rua sem olhar para trás. Estava no meio da rua quando o barulho de
uma freada violenta lhe paralisou. Olhou para trás e se deparou com um caminhão de
lixo deslizando em sua direção. Seu coração acelerou e ela levantou os braços para
proteger o rosto na vã tentativa de escapar da tragédia.

Eliseu encostou sua bicicleta ao lado da porta da padaria e foi tomar seu desjejum. O
cheiro forte do café lhe remeteu ao tempo em que tinha uma casa e uma família. Tivera
uma boa educação, cursara uma boa faculdade, mas as más companhias e a
perspectiva do dinheiro fácil o levaram para o mundo do crime. Começou pegando
pequenas quantidades de cocaína para vender nas festinhas da faculdade. Em pouco
tempo era o traficante preferido dos playboys da zona sul.

Durou pouco a iniciativa de Eliseu. As facções do crime ficaram sabendo de um cara
que ameaçava tomar conta da distribuição de drogas no Rio de Janeiro e armaram
para que a polícia o pegasse em flagrante. Ele foi preso ao receber um carregamento
de uma tonelada de pasta de cocaína. Perdeu tudo. A justiça lhe tomou todos os bens
que havia comprado com o dinheiro do tráfico. Pagou advogados para conseguir uma
pena menor e ficou sem um tostão no bolso. No presídio ficou isolado. Todas as três
fações queriam sua cabeça. Foram oito anos até sair na condicional.

Eliseu acabou de comer o pão e tomou o último gole de café. Colocou a xicara no
balcão e se despediu da atendente. Preparava-se para partir quando foi interrompido
por uma freada brusca. A poucos metros, um caminhão de lixo ia ao encontro de uma
mulher. Gritos para que ela saísse da rua foram ouvidos, mas parecia que o medo a
deixara sem reação.

Foi automático. Eliseu largou a bicicleta e se lançou pegando a moça pela cintura e
caindo com ela a centímetros da sarjeta. Os pneus passaram rentes a sua cabeça e
suas narinas foram invadidas pelo o cheiro forte de borracha fritando no asfalto. O
caminhão parou a poucos metros deles e varias pessoas correram em seu socorro.
Tremendo muito, a moça custou a se levantar. Alguém a levou para a calçada e uma
cadeira apareceu trazida de algum lugar. Ela sentou-se e bebeu um copo de água que
se materializou na sua frente. Eliseu saiu discretamente, levantou sua bicicleta, montou
e seguiu pela Rua da Passagem em direção ao Túnel Novo em busca de seu sustento
diário.

Maria Cecília bebeu a água que lhe deram em pequenos goles. Suas mãos tremiam
sem parar e a respiração ofegante demorou em se recompor. Olhou para todos em sua
volta e não reconheceu seu salvador.

– Onde está o rapaz que me salvou?

A resposta foi sufocada pelos estampidos de três tiros. Todos que estavam à volta de
Maria Cecilia se voltaram para rua tentando entender o que havia ocorrido. A poucos
metros dali o corpo de Eliseu sangrava no asfalto molhado. Em segundos Maria Cecilia
chegou a seu lado, mas não havia mais nada a fazer. O anjo que salvara sua vida tinha
voltado ao céu.

Barriga Seca

UM levantou o nariz. No corredor escuro, úmido e frio trafegava uma brisa que
lhe arrepiava os pelos do nariz. Ele aspirou o cheiro de carne fresca. Seus
pulmões se encheram daquele odor que iria saciar sua fome. Assim que teve a
certeza de onde vinha o cheiro inebriante, saiu em disparada pelo corredor
pouco iluminado. Em pouco tempo chegou ao entroncamento da via principal.
Centenas de companheiros corriam afoitos numa mesma direção e ele teve a
certeza de que não fora o único a aspirar o sabor fresco da comida. Um
turbilhão avançava veloz como um rio caudaloso. Temeroso, se jogou no meio
da massa uniforme que seguia na mesma direção. Todos corriam
desesperados buscando serem os primeiros e conquistar o pedaço mais
saboroso. Subitamente a avalanche parou e todos que os acompanhavam
foram jogados sobre os que primeiro tinham chegado. Ofegantes, os olhos
vermelhos, os pelos dos corpos eriçados, esmagavam-se uns sobre os outros
tentando alcançar a entrada da caixa.

Um grito surgiu a seu lado como um esguicho.

– O que está acontecendo? Por que não podemos entrar? – o cara ao seu lado
parecia transtornado. Em pé, mostrava os dentes afiados salivando sem parar.

Nem uma resposta se ouviu no meio da multidão. UM se sentiu pressionado
pelo número cada vez maior de comensais que chegava para o banquete. Sua
barriga doía e os músculos retesados procuravam defendê-lo de quem estava
ao seu lado.

No meio da desordem UM identificou seu amigo. DOIS estava a poucos corpos
de distancia e lutava para chegar à frente da turba.

– Hei, DOIS! – seu grito não conseguiu se destacar na multidão. – Hei, DOIS!
Aqui! – nesse momento, vinda de algum lugar, uma brisa suave invadiu o
corredor quase escuro e por um momento fez-se silencio. O suficiente para que
sua voz cortasse o ar rarefeito e encontrasse os ouvidos de seu companheiro.

DOIS estava com as mãos húmidas e o nariz vermelho apontando para o teto.
Procurou identificar na multidão, entre tantos olhos vermelhos, aquele que lhe
gritara. Teve dificuldades para encontrar quem lhe chamara no meio daquela
massa homogênea. Com muita dificuldade conseguir identificar UM espremido
por outros tantos corpos e lhe gritou entusiasmado.

– Aí, é sempre assim quando chega a comida?

– Não – disse UM – hoje a turba está menor. Vai dar para pegar um bom
pedaço. – DOIS ficou sem saber se UM estava sendo sincero ou irônico.

UM sentia que a pressão estava cada vez maior e mais asfixiante. Naquele
corredor escuro e mal cheiroso, cheio de corpos amontoados soltando
guinchos esfomeados, a única razão que os mantinha quietos era a expectativa
de saciarem a fome com a carne fresca. O grupo estava ficando cada vez
maior e a cada dia ficava mais difícil alimentar a todos.

Mas – continuou UM com seus pensamentos – eles tinham um líder que, a
despeito das brigas internas, sempre os mantinha unidos. Havia respeito entre
eles e a sensação de dever para com os irmãos. Havia os que prospectavam
novos locais para moradia, os que buscavam novos pontos de alimento, os que
cuidavam da segurança. Cada indivíduo tinha a sua missão e sua
responsabilidade para com o grupo, mas a fome os fazia esquecer quaisquer
regras e convenções. Na fome era cada um por si.

Sentindo-se sufocado pela pressão que os corpos ao seu redor lhe faziam, UM
gritou o mais alto que pôde, na esperança de que alguém lá na frente o ouvisse
e iniciasse o processo de invasão.

– Não dá mais para esperar que a porta seja aberta. Temos que forçar a
entrada!

Suas preces foram atendidas. A turba começou a forçar a porta, uns se
jogando sobre os outros fazendo uma forte pressão até que a porta se rompeu.

Com a abertura, cada um tentou ser o primeiro a chegar à comida. Os mais
fortes passavam sobre os mais fracos, adultos deixavam jovens para trás. O
importante era comer.

Ao passar pela porta UM reparou um corpo caído ao lado e interrompeu sua
corrida. Aproximou-se devagar, rodeando o corpo inerte jogado no chão e já
cercado de formigas. Olhou com atenção os fios do bigode sobressaindo e
imediatamente identificou o morto. Sem dúvida alguma era o líder. O corpo
estava duro, esticado no chão úmido e a boca semiaberta. Súbito, algo naquele
cadáver lhe chamou a atenção. A barriga estava estufada.

UM gritou para chamar a atenção para a tragédia que ali se mostrava, mas a
turba faminta só pensava na carne. Os primeiros que chegaram abriram o
caminho através das frágeis placas de madeira que protegiam a carne de
comensais indesejados. Ele foi arrastado por uma mão fria que lhe jogou
novamente no meio da turba. Não havia tempo para pensar naquele momento.
Ficar parado significava morrer pisoteado. Ele escolheu participar do banquete
com os outros e foi mais um a cravar os dentes naquela coxa suculenta,
embora fria.

DOIS, a seu lado, parou por um instante com a boca cheia.

– Cara, isso é muito bom!

UM levantou os olhos e não deu resposta alguma. Apenas continuou a comer,
insanamente.

A lua cheia salpicava sua luminosidade sobre a brancura dos jazigos. Estava
tão claro que se podia ver alguém a metros de distancia. Por todo cemitério
pairava uma calma tranquilizadora. Já era tarde da noite e alguns pássaros
noturnos emitiam seus piares agourentos cortando a imensidão vazia.

Um homem soturno, um tanto corcunda, arrastava-se por entre as covas
espalhando pequenos bolos esbranquiçados e úmidos. Num rosnado, ele
vociferou entre os dentes – eu vou acabar com esses desgraçados – essas
palavras mostravam a determinação de quem queria exterminar de vez com a
praga que assolava o pequeno cemitério.

UM havia comido muito na parte da manhã, mas agora seu estômago doía de
tanta fome. Ele não gostava de vísceras, por isso não ficava comendo os
restos dentro dos sepulcros. O ar fresco da noite lhe fazia bem. Sobre a laje de
uma sepultura, ergueu-se sobre as patas traseiras e olhou para o céu
estrelado. Tinha dificuldades em entender por que tinham que viver em tuneis
escuros quando a vida do lado de fora era tão luminosa. Uma brisa leve passou
pelas suas narinas trazendo um cheiro delicioso. Ele farejou o ar em busca
daquele perfume e seguiu o aroma por entre as lajes até encontrar o pequeno
petisco. Um bolo branco com pedacinhos de carne, arroz e feijão. Uma alegria
incontida tomou conta de UM – Caraca! – Ele cravou os dentes no bolo
enchendo a boca e engolindo pedaços da suculenta iguaria. Comeu tudo. Não
sobrou nada. Ainda com os lábios sujos de comida começou a farejar a procura
de mais petiscos. Subitamente, sentiu uma grande sede. Precisava de água.
Sentia a boca seca, vazia. A cada segundo que passava sua sede aumentava.
Sua barriga estava se comprimindo, parecia que estava ficando pesada. Ele
correu desesperado de um lado para outro tentando encontrar o liquido vital
para sua vida. Os minutos foram passando e ele começou a sentir suas
entranhas secarem com um lago numa grande estiagem. Fraco, encostou-se
numa laje. As pernas não mais lhe obedeciam. Foi olhando o céu estrelado que
a morte o encontrou com a barriga dura que nem pedra.

No dia seguinte, o coveiro passou por entre as sepulturas recolhendo os
cadáveres dos ratos, mortos com a mistura de gesso e restos de comida. “esse
troço é melhor do que chumbinho” – pensou o coveiro numa felicidade sem fim.