Barriga Seca

UM levantou o nariz. No corredor escuro, úmido e frio trafegava uma brisa que
lhe arrepiava os pelos do nariz. Ele aspirou o cheiro de carne fresca. Seus
pulmões se encheram daquele odor que iria saciar sua fome. Assim que teve a
certeza de onde vinha o cheiro inebriante, saiu em disparada pelo corredor
pouco iluminado. Em pouco tempo chegou ao entroncamento da via principal.
Centenas de companheiros corriam afoitos numa mesma direção e ele teve a
certeza de que não fora o único a aspirar o sabor fresco da comida. Um
turbilhão avançava veloz como um rio caudaloso. Temeroso, se jogou no meio
da massa uniforme que seguia na mesma direção. Todos corriam
desesperados buscando serem os primeiros e conquistar o pedaço mais
saboroso. Subitamente a avalanche parou e todos que os acompanhavam
foram jogados sobre os que primeiro tinham chegado. Ofegantes, os olhos
vermelhos, os pelos dos corpos eriçados, esmagavam-se uns sobre os outros
tentando alcançar a entrada da caixa.

Um grito surgiu a seu lado como um esguicho.

– O que está acontecendo? Por que não podemos entrar? – o cara ao seu lado
parecia transtornado. Em pé, mostrava os dentes afiados salivando sem parar.

Nem uma resposta se ouviu no meio da multidão. UM se sentiu pressionado
pelo número cada vez maior de comensais que chegava para o banquete. Sua
barriga doía e os músculos retesados procuravam defendê-lo de quem estava
ao seu lado.

No meio da desordem UM identificou seu amigo. DOIS estava a poucos corpos
de distancia e lutava para chegar à frente da turba.

– Hei, DOIS! – seu grito não conseguiu se destacar na multidão. – Hei, DOIS!
Aqui! – nesse momento, vinda de algum lugar, uma brisa suave invadiu o
corredor quase escuro e por um momento fez-se silencio. O suficiente para que
sua voz cortasse o ar rarefeito e encontrasse os ouvidos de seu companheiro.

DOIS estava com as mãos húmidas e o nariz vermelho apontando para o teto.
Procurou identificar na multidão, entre tantos olhos vermelhos, aquele que lhe
gritara. Teve dificuldades para encontrar quem lhe chamara no meio daquela
massa homogênea. Com muita dificuldade conseguir identificar UM espremido
por outros tantos corpos e lhe gritou entusiasmado.

– Aí, é sempre assim quando chega a comida?

– Não – disse UM – hoje a turba está menor. Vai dar para pegar um bom
pedaço. – DOIS ficou sem saber se UM estava sendo sincero ou irônico.

UM sentia que a pressão estava cada vez maior e mais asfixiante. Naquele
corredor escuro e mal cheiroso, cheio de corpos amontoados soltando
guinchos esfomeados, a única razão que os mantinha quietos era a expectativa
de saciarem a fome com a carne fresca. O grupo estava ficando cada vez
maior e a cada dia ficava mais difícil alimentar a todos.

Mas – continuou UM com seus pensamentos – eles tinham um líder que, a
despeito das brigas internas, sempre os mantinha unidos. Havia respeito entre
eles e a sensação de dever para com os irmãos. Havia os que prospectavam
novos locais para moradia, os que buscavam novos pontos de alimento, os que
cuidavam da segurança. Cada indivíduo tinha a sua missão e sua
responsabilidade para com o grupo, mas a fome os fazia esquecer quaisquer
regras e convenções. Na fome era cada um por si.

Sentindo-se sufocado pela pressão que os corpos ao seu redor lhe faziam, UM
gritou o mais alto que pôde, na esperança de que alguém lá na frente o ouvisse
e iniciasse o processo de invasão.

– Não dá mais para esperar que a porta seja aberta. Temos que forçar a
entrada!

Suas preces foram atendidas. A turba começou a forçar a porta, uns se
jogando sobre os outros fazendo uma forte pressão até que a porta se rompeu.

Com a abertura, cada um tentou ser o primeiro a chegar à comida. Os mais
fortes passavam sobre os mais fracos, adultos deixavam jovens para trás. O
importante era comer.

Ao passar pela porta UM reparou um corpo caído ao lado e interrompeu sua
corrida. Aproximou-se devagar, rodeando o corpo inerte jogado no chão e já
cercado de formigas. Olhou com atenção os fios do bigode sobressaindo e
imediatamente identificou o morto. Sem dúvida alguma era o líder. O corpo
estava duro, esticado no chão úmido e a boca semiaberta. Súbito, algo naquele
cadáver lhe chamou a atenção. A barriga estava estufada.

UM gritou para chamar a atenção para a tragédia que ali se mostrava, mas a
turba faminta só pensava na carne. Os primeiros que chegaram abriram o
caminho através das frágeis placas de madeira que protegiam a carne de
comensais indesejados. Ele foi arrastado por uma mão fria que lhe jogou
novamente no meio da turba. Não havia tempo para pensar naquele momento.
Ficar parado significava morrer pisoteado. Ele escolheu participar do banquete
com os outros e foi mais um a cravar os dentes naquela coxa suculenta,
embora fria.

DOIS, a seu lado, parou por um instante com a boca cheia.

– Cara, isso é muito bom!

UM levantou os olhos e não deu resposta alguma. Apenas continuou a comer,
insanamente.

A lua cheia salpicava sua luminosidade sobre a brancura dos jazigos. Estava
tão claro que se podia ver alguém a metros de distancia. Por todo cemitério
pairava uma calma tranquilizadora. Já era tarde da noite e alguns pássaros
noturnos emitiam seus piares agourentos cortando a imensidão vazia.

Um homem soturno, um tanto corcunda, arrastava-se por entre as covas
espalhando pequenos bolos esbranquiçados e úmidos. Num rosnado, ele
vociferou entre os dentes – eu vou acabar com esses desgraçados – essas
palavras mostravam a determinação de quem queria exterminar de vez com a
praga que assolava o pequeno cemitério.

UM havia comido muito na parte da manhã, mas agora seu estômago doía de
tanta fome. Ele não gostava de vísceras, por isso não ficava comendo os
restos dentro dos sepulcros. O ar fresco da noite lhe fazia bem. Sobre a laje de
uma sepultura, ergueu-se sobre as patas traseiras e olhou para o céu
estrelado. Tinha dificuldades em entender por que tinham que viver em tuneis
escuros quando a vida do lado de fora era tão luminosa. Uma brisa leve passou
pelas suas narinas trazendo um cheiro delicioso. Ele farejou o ar em busca
daquele perfume e seguiu o aroma por entre as lajes até encontrar o pequeno
petisco. Um bolo branco com pedacinhos de carne, arroz e feijão. Uma alegria
incontida tomou conta de UM – Caraca! – Ele cravou os dentes no bolo
enchendo a boca e engolindo pedaços da suculenta iguaria. Comeu tudo. Não
sobrou nada. Ainda com os lábios sujos de comida começou a farejar a procura
de mais petiscos. Subitamente, sentiu uma grande sede. Precisava de água.
Sentia a boca seca, vazia. A cada segundo que passava sua sede aumentava.
Sua barriga estava se comprimindo, parecia que estava ficando pesada. Ele
correu desesperado de um lado para outro tentando encontrar o liquido vital
para sua vida. Os minutos foram passando e ele começou a sentir suas
entranhas secarem com um lago numa grande estiagem. Fraco, encostou-se
numa laje. As pernas não mais lhe obedeciam. Foi olhando o céu estrelado que
a morte o encontrou com a barriga dura que nem pedra.

No dia seguinte, o coveiro passou por entre as sepulturas recolhendo os
cadáveres dos ratos, mortos com a mistura de gesso e restos de comida. “esse
troço é melhor do que chumbinho” – pensou o coveiro numa felicidade sem fim.

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