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Palhaços, Colombinas e Piratas

Era fim de tarde daquele domingo de carnaval de 1970. A mãe passara o dia cantando
antigas marchinhas, debruçada sobre sua máquina de costura. Por fim parou o trabalho e
disse para as duas crianças mais velhas de um total de seis:

– Vão tomar banho e se arrumar que iremos ver o desfile das escolas de samba.
Desfile de escola de samba? O que seria aquilo? As crianças se perguntavam como seria
uma “escola” de samba. Conheciam o desfile dos maracatus e dos blocos de sujo em sua
terra natal, mas nunca tinham ouvido falar de escola de samba. Daquele momento até
estarem prontas para sair foi um turbilhão de curiosidade invadindo as cabeças das duas
crianças.

Já estava anoitecendo quando a mãe e as duas crianças saíram de casa. O menino, mais
novo, vestia calças curtas de tergal azul marinho, camiseta de malha com listas azuis,
amarelas e vermelhas e sapato de borracha Vulcabrás. A menina vestia saia de pregas
xadrez em tons de vermelho e azul, uma batinha branca de alcinhas e sandálias brancas
de tirinhas. A mãe estava com um vestido vermelho, tipo tubinho, e sandálias brancas.
De mãos dadas com a mãe, as duas crianças partiram para um mundo desconhecido
envoltos na alegria desmedida do domingo de carnaval.

No caminho para a estação de trens, a mãe comprou-lhes duas bisnagas de plástico que
cheias de águas com sabão seriam armas importantes nas batalhas do dia seguinte com
os outros irmãos e a meninada da vizinhança. Também lhes comprou dois martelos de
plástico que aos serem batidos contra alguém ou alguma coisa, fazia um barulhinho
agudo. Chegando à estação encontraram a plataforma cheia de palhaços, colombinas,
piratas, hawaianas, bate-bolas e tantas outras fantasias vestidas por homens, mulheres e
crianças. Havia, também, muitos, muitos homens vestidos de índio americano. A pedido
do menino, a mãe perguntou o nome do bloco do qual faziam parte e ficaram sabendo
que todos eram do Cacique de Ramos e que estavam indo para avenida ganhar do Bafo
da Onça. Os integrantes do Cacique começaram a cantar o samba do bloco e toda
plataforma foi contagiada pela alegria que saía daquelas gargantas carnavalescas.

Quando o trem chegou foi uma algazarra tremenda. Um mundo de gente invadiu os
vagões que já estavam apinhados. A cada momento uma marchinha ou um samba eram
lembrados e todos no vagão cantavam a mesma música até que fosse substituída por
outra tão ou mais empolgante. Uma velhinha, vestida de pistoleira, perguntou ao
menino onde ele estava indo. Quando soube que ele estava indo ver as escolas de
samba, a senhorinha começou a falar de forma entusiasmada sobre como era o desfile
na Avenida Presidente Vargas. Segundo ela, todas as escolas eram maravilhosas, os
sambas eram contagiantes e empolgavam as arquibancadas. Mangueira, Salgueiro,
Portela, Império Serrano, Unidos de Lucas, Em Cima da Hora… A velha foliã falava de
cada escola como se já tivesse desfilado em todas as alas. Falava de passistas, mestres-
salas e portas-bandeiras, baianas e abre-alas. Nesse quesito, dizia ela, ninguém superava
a Portela com sua águia altaneira, abrindo a avenida para a escola passar. A visão de um
pássaro sobrevoando uma avenida, gritando para o povo “Deixa a Portela passar!”,
encantou o menino que se imaginou voando com a águia e pousando magicamente no
meio da avenida para os aplausos do público nas arquibancadas.

Quando chegaram à Central do Brasil já era noite fechada. Fora da estação eles
passaram por carros alegóricos que já haviam desfilado. A mãe ficara sabendo que os
lugares nas arquibancadas eram pagos. Eles não tinham dinheiro para comprar as
entradas que também já estavam esgotadas. O jeito, segundo a mãe, era irem até a área
de concentração onde os componentes ficavam aguardando o inicio do desfile. Lá eles
poderiam ver os carros alegóricos e as fantasias, e a bateria tocava o samba-enredo para
“esquentar” os integrantes da escola.

Na concentração, espremidos entre grades de ferro, eles viram passar alas imensas:
baianas, índios, capoeiras… O cansaço batia forte, mas as duas crianças não queriam
arredar o pé daquele lugar. Em meio aquela multidão havia torcedores de todas as
escolas e todos, em absoluto, diziam que sua escolar seria a campeã. De repente a
notícia chegou provocando uma correria da multidão em direção às arquibancadas: a
entrada estava liberada!

A mãe pegou nas mãos das duas crianças e as arrastou em direção às arquibancadas
buscando uma entrada que tivesse menos tumultuada. Já havia passado por dois setores
quando vislumbrou uma entrada em que as pessoas subiam ordeiramente e para lá
caminhou célere arrastando as duas crianças. O menino tomou à frente e foi subindo os
degraus. Parecia que estava entrando em um túnel e que na outra ponta uma grande
luminosidade o esperava. Alguém passou por ele gritando: “É a Portela entrando na
avenida!” e subiu os degraus em disparada. O coração do menino se apertou e começou
a pulsar mais forte. Quando chegou ao alto da escada ele se viu no meio de uma
arquibancada totalmente lotada com pessoas em pé agitando bandeiras azuis e brancas e
foi então que ele ouviu a música cantada por uma arquibancada apaixonada:

“Portela! Portela!
O samba trazendo a alvorada
Meu coração conquistou”

O menino olhou para baixo e no meio da avenida, à frente da escola, vinha a águia
como que abrindo as asas para a escola passar. A Portela iniciou seu desfile e um mar
azul salpicado de espumas brancas coloriu a passarela. Extasiado, o menino a tudo
assistia, sem piscar os olhos, embalado por uma multidão que aplaudia e gritava a
plenos pulmões: “Já ganhou! Já ganhou!”

A escola passava diante dos seus olhos com seus carros alegóricos cheios de Tupã,
Jaçanã e cavalos montados por índias guerreiras, mostrando a exuberância da
Amazônia, e a bateria, simbolizando o rio-mar, arrancava aplausos entusiasmados
enquanto a multidão cantava em êxtase:

“A lua apaixonada chorou tanto
Que do seu pranto nasceu o rio-mar”

Na apuração do resultado, na quarta-feira de cinzas, a Portela sagrou-se campeã – o
último campeonato que ganhou sozinha. Naquela madrugada de segunda-feira, ao
passar pela avenida como um rio de águas cristalinas e borbulhantes, a Portela ganhou
mais do que um carnaval: ganhou o amor e a cumplicidade eternos de um torcedor que
jamais deixará de se emocionar ao vê-la desfilar a cada novo carnaval.

O Anjo que Apareceu do Nada

Os pingos da chuva açoitavam a lona da barraca em ritmo incansável. A luminosidade
opaca do dia pouco permitia ver o que acontecia do lado de fora. Eliseu consultou seu
velho relógio digital. Passava das sete horas. Acabara o descanso. Ainda dentro da
barraca, enrolou suas cobertas e as acondicionou em sacos plásticos, depois saiu e
iniciou o desmonte. Após desmontar a barraca, olhou para o posto de combustível do
outro lado da rua. Sua bicicleta ainda estava no mesmo lugar. Na noite anterior a
deixara presa a um poste por uma grossa corrente e um cadeado

Sem nenhuma pressa procurou em seus guardados a escova de dentes e o creme
dental, depois atravessou a rua para usar bica do lava-jato existente dentro do posto de
combustível. Após terminar sua higiene bucal, Eliseu meteu a cabeça em baixo do jato
de água e deixou que seus dreadlocks se molhassem. Após sacudir a cabeça para
escorrer a água, voltou para a calçada empurrando a bicicleta. Primeiro colocou sua
barraca no bagageiro e a amarrou com bastante força, depois colocou em cima sua
caixa de apetrechos onde guardava suas cobertas e as poucas roupas, além de uma
caneca de plástico, uma pequena panela de alumínio, uma colher grande, um garfo e
uma faca. Era tudo o que tinha e o que lhe permitia sobreviver nas ruas.

Há algum tempo vivia de pequenos biscates e, quando não aparecia nada para fazer,
catava latas de alumínio e as vendia em um centro de reciclagem. Não reclamava da
vida. Tinha aquilo que de fato merecia.

Depois de muito vagar pela cidade, encontrou aquele pequeno pedaço de tranquilidade
em Botafogo. Havia uma larga marquise que protegia a entrada de uma grande loja
que até aquele momento continuava sem ser ocupada. A calçada era limpa, não tinha
outros moradores de rua por perto e fizera amizade com os funcionários do posto de
combustível. Eles lhe permitiam tomar banho em suas dependências, pegar água para
fazer a comida e, pela manhã, escovar os dentes e lavar o rosto. Não sabia precisar há
quanto tempo estava naquele ponto. Já havia se acostumado com aquela
tranquilidade. Se cada um tinha o que merecia, ele tinha muito mais. Novos pingos de
chuva indicavam aquele seria um dia complicado. Ainda tinha uns trocados. Era hora
de passar na padaria, comprar um pãozinho e tomar um café.

Maria Cecília se equilibrava na ponta dos pés tentando enxergar um taxi no
emaranhado de carros que deslizavam pela Rua Visconde de Pirajá. Há pouco mais de
uma hora havia saído de sua casa no Alto Leblon para fazer uma mamografia solicitada
por sua médica. Ao chegar ao laboratório, descobriu que a máquina estava quebrada,
mas que poderia fazer o exame na filial da Rua General Polidoro em Botafogo. Ela
conseguiu que um taxi parasse e a levasse ao local. Depois de realizar o exame
consultou o relógio em seu pulso. Estava atrasada para sua aula de Pilates. Caminhou
apressada pela Rua General Polidoro em direção a Rua da Passagem onde imaginou
que seria mais fácil conseguir um taxi àquela hora da manhã que a levasse de volta ao
Leblon.

Enquanto seguia pela calçada disputou espaço com algumas bicicletas que fugiam da
ciclovia e teimavam em assustar os pedestres. Maria Cecília lembrou-se do tempo em
que morou em Paris para onde foi depois de uma longa temporada em Vancouver.
Depois de Paris morara em Londres e em Barcelona, sempre acompanhando Beto no
exercício de diversos cargos nas empresas da família dele numa longa preparação
para que ele assumisse as empresas da família. Um grupo empresarial dono de
grandes marcas de bebidas ao redor do mundo.

Conheceram-se na faculdade de economia onde ela entrara pensando em um dia ir
trabalhar no Banco Mundial. Queria ser uma cidadã do mundo. Estava sentada no
fundo da sala quando Beto entrou com seu cabelo louro e lindos olhos verdes. Ele
desviou-se das cadeiras da frente e sentou-se a seu lado. Foi paixão ao primeiro olhar.
Em pouco tempo se desencantara com o curso, mas para estar ao lado de Beto tornou-
se uma grande conhecedora de macroeconomia e sabia explicar em detalhes os
fundamentos da teoria dos jogos elaborada por John Nash. Após a formatura, casaram-
se e aceitaram ir para uma fabrica de cerveja em Vancouver onde eles começariam a
trabalhar como trainees.

A vida no Canadá foi muito cansativa. Em pouco tempo Beto assumiu a diretoria de
distribuição com a missão de criar uma nova logística para colocar a cerveja em cada
canto do país. Ela fazia estudos para acompanhar os hábitos de consumo da
população local. Após longos seis anos os dois foram para Chicago onde cursaram um
MBA em uma das mais prestigiosas universidades americanas. Depois do curso foram
para a Europa. À medida que Beto recebia maiores responsabilidades nas empresas
da família, eles se distanciavam. Ela queria filhos e sentia saudades da mãe. Aos
poucos a situação ficou insustentável e o amor acabou.

O divórcio lhe trouxe paz de espírito e a estabilidade financeira. Beto foi um grande
amigo. Além do patrimônio que os dois haviam construído e que foi dividido meio a
meio, ele lhe deu um lote generoso de ações da holding que lhe davam a certeza de
que não teria problemas financeiros.

Estava há um ano no Rio de Janeiro morando na casa que havia comprado com Beto
no Alto Leblon e que na partilha dos bens ficara com ela. Trabalhava na montagem de
uma ONG. Maria Cecília queria ajudar aos mais pobres a transformarem suas vidas.
Sua ideia era criar oportunidade de emprego e renda para um elemento da família e
esse possibilitar oportunidades para os outros membros. Enquanto o projeto não se
materializava preenchia seu dia com aulas de Pilates e caminhadas pela orla do
Leblon.

Com a cabeça tomada pelas recordações, Maria Cecília viu um taxi parando a poucos
metros para deixar passageiros. Decidida a não perdê-lo acelerou os passos
atravessando a rua sem olhar para trás. Estava no meio da rua quando o barulho de
uma freada violenta lhe paralisou. Ela olhou para trás e se deparou com um caminhão
de lixo deslizando em sua direção sem lhe dar tempo para reagir. Seu coração
acelerou e ela levantou os braços para proteger o rosto na vã tentativa de escapar da
tragédia.

Eliseu encostou sua bicicleta ao lado da porta da padaria e foi tomar seu desjejum. O
cheiro forte do café lhe remeteu ao tempo em que tinha uma casa e uma família. Tivera
uma boa educação, cursara uma boa faculdade, mas as más companhias e a
perspectiva do dinheiro fácil o levaram para o mundo do crime. Começou pegando
pequenas quantidades de cocaína para vender nas festinhas da faculdade. Em pouco
tempo era o traficante preferido dos playboys da zona sul. O dinheiro começou a entrar
e ele pôs em mente que seria o traficante mais respeitado do Rio de Janeiro. Tinha
tudo para dar certo. Era inteligente, não consumia drogas e havia feito contato com um
integrante das forças de libertação de um país vizinho, grande produtor de pasta de
cocaína. Sim, pensou na época, ele seria grande, bandido nenhum se meteria na sua
frente.

Durou pouco a iniciativa de Eliseu. As facções do crime ficaram sabendo de um cara
que ameaçava tomar conta da distribuição de drogas no Rio de Janeiro e armaram
para que a polícia o pegasse em flagrante. Eliseu foi preso ao receber um
carregamento de uma tonelada de pasta de cocaína. Perdeu tudo. Seu pai lhe virou o
rosto quando soube de onde vinha o dinheiro do filho. Sua mãe tentou contemporizar,
mas o velho o renegou. A justiça lhe tomou todos os bens que havia comprado com o
dinheiro do tráfico. Pagou os advogados para conseguir uma pena menor e ficou sem
um tostão no bolso. No presídio ficou isolado. Todas as três fações existentes na
cadeia queriam sua cabeça. Foram oito anos, até sair na condicional. Há quatro anos
havia saído da prisão prometendo para si que jamais voltaria para aquele lugar e
estava cumprindo.

Quando saiu da prisão procurou sua mãe, mas ela havia morrido. Não quis encontrar
seu pai e fugiu de sua irmã. Tinha vergonha do que os fizera passar e jurou que daria a
volta por cima. Sem lugar para ficar, acabou indo morar nas ruas.

Eliseu acabou de comer o pão e tomou o último gole de café. Colocou a xicara no
balcão e se despediu da atendente. Preparava-se para montar na bicicleta, mas foi
interrompido pelo barulho provocado por uma freada brusca. A poucos metros um
caminhão de lixo ia ao encontro de uma mulher paralisada no meio da rua. Gritos para
que ela saísse da rua foram ouvidos, mas parecia que o medo a deixara sem reação.

Foi automático. Eliseu largou a bicicleta e se lançou ao meio da rua pegando a moça
pela cintura e caindo com ela a centímetros da sarjeta. Os pneus do caminhão
passaram rentes a sua cabeça e suas narinas foram invadidas com o cheiro forte de
borracha fritando no asfalto. O caminhão parou a poucos metros deles e varias
pessoas correram em seu socorro. Tremendo muito, a moça custou a se levantar.
Alguém a levou para a calçada e uma cadeira apareceu trazida não se sabe de onde.
Ela sentou-se e bebeu um copo de água que se materializou na sua frente. Eliseu
percebeu que a moça estava se recuperando e saiu discretamente no grupo que se
reuniu em volta da quase acidentada. Eliseu levantou sua bicicleta ainda jogada na
calçada, montou e seguiu pela Rua da Passagem em direção ao Túnel Novo em busca
de seu sustento diário.

Maria Cecília bebeu a água que lhe deram em pequenos goles. Suas mãos tremiam
sem parar e a respiração ofegante demorou em se recompor. Olhou para todos em sua
volta e não reconheceu seu salvador.

– Onde está o rapaz que me salvou?

As pessoas olharam entre si e alguém disse que ele havia ido embora. Ela queria
agradecer.

– Ele é um morador de rua – disse um moreno forte – e está sempre por aqui.
Já refeita do susto, Maria Cecília levantou-se e pegou um taxi de volta para casa.
Naquele dia ela não conseguiu pensar em nada mais que não fosse aquele quase
acidente. Por mais que tentasse não conseguia entender as razões que levam uma
pessoa a colocar a própria vida em risco para salvar outra, totalmente desconhecida.
Haviam dito que aquele homem era um sem teto. Ela começou a imaginar que poderia
ajudá-lo de alguma maneira. Talvez ele aceitasse algum dinheiro ou outra recompensa
qualquer.

No dia seguinte Maria Cecília não foi para sua aula de Pilates. Pegou um taxi próximo a
sua casa e pediu para ir para Botafogo. Eram quase oito horas da manhã quando
chegou ao local onde quase fora atropelada. Andou em várias direções tentando
encontrar seu salvador, sem qualquer sucesso.

Maria Cecília voltou muitas vezes a Botafogo na esperança de encontrar-se com
aquele homem que lhe salvara de uma tragédia. Um dia chegou à padaria por volta das
sete e meia da manhã e o atendente lhe disse que o sujeito que se jogara na frente do
caminhão para lhe salvar havia tomado café e saído a poucos minutos. Outra vez o
frentista do posto de combustível lhe informou que o rapaz não aparecia há alguns
dias, mas que sempre armava uma barraca do outro lado da calçada para dormir. Nas
noites em que decidiu ir até lá para encontra-lo, houve sempre um desencontro.
Pensou em desistir de sua busca. Ele era apenas um anjo que apareceu para lhe fazer
um bem e voltou para o céu, ou partiu para ajudar a outras pessoas. Por alguns dias
se conformou com esse pensamento, mas depois sempre dava um jeito de passar por
Botafogo na esperança de encontrar o seu anjo.

Eliseu parou sua bicicleta na mureta do Quadrado da Urca. Muitos barcos ancorados
esperavam solitários que alguém aparecesse para ligar seus motores e leva-los para o
mar. Ele ficara profundamente impressionado com os olhos castanhos da moça que
salvara de ser atropelada. Para fugir de um possível encontro, Eliseu ficou uns dias
trabalhando à noite na Lapa. Quando voltou a Botafogo, um cara no posto de
combustível lhe avisou que a tal moça estava lhe procurando. Ela não dissera para
quê. O frentista também não perguntou.

Fechou os olhos e a brisa salgada trazido do mar se misturou com o perfume que
sentiu exalando do corpo dela naquele dia. Há muito tempo não aquelas sensações:
aperto no peito, boca seca, as mãos tremulas só de pensar em encontrá-la. Aquilo tudo
era uma grande bobagem, pensou Eliseu, pois até que recuperasse sua dignidade não
poderia voltar a sentir amor por uma mulher, mas como sonhava em sentir novamente
aquele perfume inebriante.

Quando soube que ela o procurava sentiu um misto de curiosidade e prazer, mas
depois caiu na real. Aquela mulher queria apenas recompensá-lo por salvar a sua vida
talvez lhe dando alguns trocados. Era certo que ela tinha muito dinheiro. As roupas, o
perfume, a elegância no caminhar, eram coisas de quem vinha de berço. Tudo o que
ele um dia tivera, mas jogara na sarjeta. Agora estava ali curtindo um amor platônico.

Para fugir daquele encontro indesejável, Eliseu estava dormindo cada noite em um
local diferente. Isso era muito ruim, pois não adormecia por completo com receio de
que outros sem teto lhe levassem as poucas coisas que possuia. Estava na hora de
voltar a dormir em frente ao posto de combustivel. Se aquela mulher aparecesse ele
seria rude. Recusaria seu dinheiro e diria que faria aquilo por qualquer um e por isso
ela não deveria se considerar especial ou em divida com ele. Ela deveria seguir seu
caminho, ter mais atenção ao atravessar a rua e esquecê-lo para sempre. Sim, era isso
que iria fazer.

A noite para Maria Cecília havia sido agitada. Sonhou que caia em um poço sem fundo
e no meio da queda era segura pela mão de um anjo. Acordou com os músculos
cansados e a boca seca. Levantou-se e foi até a cozinha beber um copo de água.
Nessas horas sentia falta de sua mãe, mas optara por ficar sozinha. Talvez fosse
melhor voltar a viver com seus pais. Abandonou essa ideia ao lavar o copo e guardá-lo
no armário. Perderia sua privacidade e ainda queria curtir aquele período de pós-
divorcio sozinha. Voltou para a cama e logo adormeceu. Novamente aquele homem lhe
surgiu salvando-a de um naufrágio. Pela manhã, Maria Cecília arrumou-se e saiu de
casa com o firme proposito de encontrar aquele homem. Tinha que acabar com aquela
angustia e voltar a ter uma noite de sono tranquila. Pediu ao taxista para deixá-la no
posto de combustível no inicio da Rua da Passagem. Pagou a corrida e desceu
apressada. Olhou para a calçada onde lhe haviam dito que o anjo ficava, mas nada
havia que lhe desse a certeza de que alguem dormira naquele local. Falou com o
frentista que já lhe conhecia e foi informada que Eliseu havia dormido ali, mas fora
embora muito cedo. Agora seu anjo tinha um nome e não era o que havia imaginado.
Eliseu com certeza não era nome de anjo, mas lhe salvara a vida.

Quando saiu da cadeia, Eliseu tentou arrumar um emprego como desenvolvedor de
software, mas sempre que lhe pediam para explicar porque havia ficado fora do
mercado de trabalho por oito anos e respondia que havia sido preso por tráfico de
drogas as portas se fechavam. Em algumas vezes pensou em mentir, mas havia jurado
para si que arrumaria um emprego contando sem esconder que era ex-presidiário.
Após muitas tentativas, desistiu. Era difícil vencer o preconceito. A saída, pensou, seria
passar em um concurso público. Com essa decisão, começou a estudar e fazer várias
provas. Do pouco dinheiro que conseguia, reservava algum para acessar a internet em
uma lan house qualquer. Lá ele conseguia estudar, acessar sites de concursos e ficar
sabendo da abertura de inscrições. Há mais de um ano que havia passado para o
cargo de analista de sistemas em uma grande empresa estatal. Sonhava todo dia com
a convocação. Explicara sua intenção para o gerente do posto de combustível em
frente ao local onde dormia e ele o deixou usar o endereço do posto para contato. Sua
vida iria mudar. Ele poderia voltar para a casa do pai como um regenerado. Seria sua
volta do fundo do poço.

Se aquela mulher tivesse aparecido em sua vida com ele já empregado, pensou Eliseu,
a estória poderia ser diferente. Ele teria algo para oferecer e não haveria do que se
envergonhar. Mas o telegrama para se apresentar na empresa não chegava e ele
continuava levando uma vida miserável nas ruas. Daquele jeito não poderia sonhar em
encontrar aquela mulher. Ela zombaria dele, sentiria medo em estar ao lado de um ex-
presidiário. Quando soubesse, então, que ele havia sido traficante de drogas, fugiria
sem tomar conhecimento de seu amor. De nada adiantava sonhar com o impossível.
Jamais uma mulher como aquela se apaixonaria por ele. Em pouco tempo ela se
esqueceria do acidente e deixaria de procurá-lo. Ele continuaria na espera por sua
redenção. Pensando assim, Eliseu decidiu que era hora de se afastar um pouco de
Botafogo e ir para Laranjeiras.

Maria Cecília estava debruçada sobre dezenas de papeis espalhados sobre a mesa.
Finalizava seu plano de negócios para iniciar o trabalho com sua ONG. Conversara
com Beto sobre sua iniciativa. Ele disse que ela poderia contar com sua ajuda. Seus
olhos se voltaram para o documento aberto no computador. Precisava fazer algumas
correções. Mal iniciou o trabalho foi interrompida pelo toque do telefone. A imagem de
sua mãe na tela do celular identificou a chamada.

– Oi, mãe, tudo bem?

– Tudo. Estamos preocupados com essa estória de você ficar procurando mendigo
pelas ruas.

– Mãe, Eliseu não é mendigo…

– Ah, o sem-teto já tem um nome? Foi você quem deu ou ele se apresentou?

– Nem uma coisa nem outra. O cara lá do poso de combustível me disse que esse é o
nome dele.

– Filha, deixa isso para lá… Olha, se você quer agradecer, compra umas cestas-
básicas, passa lá na igreja do padre Jorge e deixa com ele para distribuir entre os
pobres. Faça isso, você vai se sentir melhor.

– Mãe – disse Maria Cecília querendo mudar de assunto – estou terminando o plano de
negócios da ONG. Falei com Beto e ele me disse que vai ajudar. Agora é começar a
procurar uma casa para a sede.

– Minha filha, deixa disso… Você tem um currículo invejável, trabalhou em muitos
países… Fez cursos nas melhores escolas de economia dos Estados Unidos. Pensa
bem, você nem precisa de indicação de seu pai ou de seu ex-marido. Você é muito boa
no que faz e vai conseguir um bom emprego.

– Mãe, eu já decidi. Vou abrir a ONG e se não der certo, volto a trabalhar como
economista. Emprego não vai me faltar, aqui ou lá fora.

– Está bem, mas depois não diga que eu não lhe avisei.

A mãe de Maria Cecília desligou o celular e ela voltou sua atenção para fechar o plano
de negócios. Tinha acabado de corrigir os valores necessários ao investimento para
iniciar as atividades quando o telefone tocou novamente. Maria Cecília não conseguiu
identificar a chamada, mas atendeu mesmo assim.

– Alô?

– Maria Cecília, aqui é Isabele da Só Imóveis. Estou ligando porque encontrei um
casarão em Laranjeiras que tem o espaço ideal para você. Está em excelente estado
de conservação. O espólio foi concluído e os herdeiros querem vender o mais rápido
possível. Você vai fazer um excelente negócio.

– Me passa o endereço – disse Maria Cecília – Amanhã, lá pelas dez, a gente se
encontra no local.

O dia amanheceu com um azul muito claro. O sol de outono aquecia a quem ainda
mantinha o corpo frio naquela hora da manhã. Maria Cecília desceu do taxi em frente
ao casarão que a corretora havia lhe indicado. Por fora dava a impressão de ser muito
amplo. Ela ficou encantada com a expectativa de fazer daquele local a sede da sua
ONG.

Com a chegada da corretora, as duas entraram no casarão e Maria Cecília pôde
constatar que estava bem conservado, apesar de precisar de uma pequena reforma.
Lembrou-se de sua prima Daniele que havia feito o projeto da casa que comprara com
Beto. Era aconchegante, clean e extremamente prático. “Sim”, pensou Maria Cecília,
“Daniele vai fazer um excelente trabalho com esse casarão”.

Saindo da visita ao imóvel, Maria Cecília combinou com a corretora que enviaria uma
proposta financeira assim que chegasse em casa. Passava das onze horas e seu
estomago reclamou por uma refeição. Ela decidiu procurar um restaurante. Sem muita
pressa ela caminhou pela Rua das Laranjeiras em direção ao Largo do Machado.
Procurando algum local para almoçar, seus olhos foram guiados para o outro lado da
rua. Quase não acreditou quando viu Eliseu passando de bicicleta. Maria Cecília
desafiou os carros e atravessou a rua tentando alcança-lo, mas ele se distanciou sem
dar mostras de que ouvira alguém chamá-lo. Arfando, se apoio em um muro e enxugou
o suor que escorria de sua testa. Perdera a fome. Tudo o que queria era chegar à sua
casa e se jogar em sua cama. Tanto tempo buscando seu anjo e ele lhe escapava no
momento em mais estivera perto de encontrá-lo.

Após alguns minutos em que recuperara o folego, Maria Cecília continuou andando em
direção ao Largo do Machado. Pegaria o metrô até Ipanema. Faltava pouco para
chegar à estação. Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Glória viu os carros
pararem no sinal fechado e apressou o passo para atravessar. Ao chegar do outro lado
da pista parou ao ver um homem sentado ao lado de uma bicicleta com um livro nas
mãos. “Não”, disse Maria Cecília para si, “aquele cara não era comum. Que outro
sujeito estaria naquele momento lendo tranquilamente enquanto tudo ao seu redor
girava como um caleidoscópio?”

Como se Eliseu fosse um passarinho que pudesse levantar voo ao ouvir um barulho
qualquer, Maria Cecília se aproximou cautelosa. Seu rosto ardia como se uma chama
tivesse tomado conta de seu corpo. Ao mesmo tempo, suas mãos tremiam e o coração
dava mostras de que sairia pela boca. Não sabia como ele iria reagir, mas não poderia
perdê-lo de vista outra vez.

– Oi.

Eliseu levantou a cabeça e abriu um sorriso.

– Oi…

– Meu nome é Maria Cecília, lembra de mim?

– Lembro… como você está?

– Bem – disse Maria Cecília em frente a Eliseu como se quisesse impedir sua fuga –
Estive te procurando esse tempo todo… Fui lá no posto, na padaria, andei pelas ruas
de Botafogo…

– E o que você quer de mim?

– Queria lhe agradecer e…

– Não foi nada – cortou Eliseu.

– Eu sei que talvez você esteja pensando algo errado a meu respeito e…

– Não estou pensando nada a seu respeito, quer dizer: acho que você tem que ter mais
cuidado ao atravessar as ruas – Eliseu finalizou a frase com um novo sorriso.

– Eu estou com fome – disse Maria Cecília – podemos tomar um suco?

– Infelizmente não tenho como pagar um suco para você.

– Não seja por isso – disse Maria Cecília – mais segura de si – você é meu convidado.
Vamos?

Sem alternativa, Eliseu pegou sua bicicleta e seguiu Maria Cecília até um bar com as
cadeiras na calçada. Os dois sentaram-se em uma das mesas e Eliseu fez sinal ao
garçom que foi ao seu encontro com a cara amarrada deixando claro que ele não era
bem-vindo àquele local.

– Dois sucos de laranja – disse Maria Cecília desarmando o espirito do garçom que
parecia disposto a espantá-los do restaurante.

Após beber um gole do suco que o garçom lhes trouxera, Maria Cecília mirou os olhos
de Eliseu e lhe disse em voz baixa, quase acanhada.

– Além de lhe agradecer, eu gostaria de saber o que posso fazer para retribuir a sua
generosidade.

– Já lhe disse que você não me deve nada. O que fiz por você, faria por outro qualquer.
As palavras ásperas de Eliseu arranharam o coração de Maria Cecília. Ela não
esperava que ele fosse aceitar sua ajuda de imediato, mas também não contava com
aquela rudeza. De qualquer forma não poderia desistir depois de tanto tempo tentando
encontrá-lo.

– O que você faz para sobreviver? – quis saber Maria Cecília.

– Cato latas, faço pequenos biscates…

– Você já tentou procurar um emprego?

– Olha, moça…

– Maria Cecília, esse é o meu nome…

– Bem… Maria… Cecília, eu sou ex-presidiário. Fiquei preso oito anos por tráfico de
drogas. Paguei minha pena, mas ninguém quer dar oportunidade para um ex-
condenado…

Aquelas revelações fizeram Maria Cecília lembrar-se dos conselhos de sua mãe. Ela
tinha razão, romanceara demais aquele encontro, mas talvez fosse a oportunidade que
estava procurando para começar seu trabalho social.

– Escute – disse Maria Cecília com o olhar cumplice – estou começando um trabalho
social que tem por objetivo inserir pessoas no mercado de trabalho e com isso provocar
transformações no seu núcleo familiar.

– Não dá – disse Eliseu – não tenho família.

– Tá – disse Maria Cecília – mas me deixa te ajudar de alguma forma…

– Já disse que você não me deve nada – tornou a dizer Eliseu.

– Não se trata de pagamento… se assim fosse eu poderia lhe pagar muito bem, mas
não é isso…

– E o que é então?

– Trata-se de retribuir da tua ajuda. Você foi muito legal comigo… eu posso te ajudar, o
que custa você deixar?

Eliseu ficou calado mirando o infinito. Maria Cecília tentava adivinhar o que se passava
na cabeça de seu anjo, mas tinha certeza de que nem de longe poderia chegar perto.
Agora que o tinha à sua frente, reparou que ele tinha olhos verdes. Os cabelos louros
armados em dreadlocks denunciavam que um dia ele teria sido surfista. Os dentes
eram alvos, bem cuidados e apesar das roupas puídas, estava limpo e exalava um
cheiro bom. As mãos eram fortes, os dedos longos e as unhas bem cuidadas. A barba
pouco espessa denunciava que ele não deveria ter mais do que trinta e cinco anos. A
boca foi a parte do rosto que mais chamou a atenção de Maria Cecília. Os lábios eram
finos, bem desenhados, avermelhados. Ela se pegou imaginando seu beijo, mas antes
que sentisse o sabor foi interrompida por Eliseu.

– Olha, eu realmente não preciso de nada. Quando sai da cadeia e tive dificuldades
para arrumar emprego decidi fazer concurso público, pois não precisa de experiência.
Eu estudei, fiz faculdade… era para eu estar muito bem de vida, mas quando a gente é
jovem acredita que as besteiras que fazemos não terão consequências… quando me
pegaram, eu já estava formado e trabalhando. Fui preso e perdi tudo, menos o meu
diploma, esse ninguém me tira.

– E você conseguiu aprovação em algum concurso?

– Sim, eu passei para analista de sistemas em um estatal. Estou somente aguardando
me chamarem.

– E como vão te encontrar? Você não tem endereço fixo… você pode até perder essa
vaga…

– Não tem esse risco não. Meu endereço é o do posto de combustível lá em Botafogo,
além disso, eu acompanho as convocações pela internet.

– Mas quando te chamarem, como você vai comprar roupas para trabalhar?

– Do que consigo arrumar, guardo um pouco de dinheiro para quando chegar a hora.
Maria Cecília não parava de se surpreender com Eliseu. Que força de vontade aquele
homem tinha, pensou ela decidida a ajuda-lo de qualquer maneira.

– Olha, moro em uma casa e nos fundos tem um quarto de empregado que não é
utilizado há muito tempo. Você pode ficar lá até começar a trabalhar e ter dinheiro para
sair, o que acha?

– Vou pensar – disse Eliseu – na próxima vez que a gente se encontrar te dou a
resposta.

– De jeito nenhum – disse Maria Cecília – faz três meses que estou te procurando e não
vou te perder de vista de novo.

– Você não me conhece direito, não sabe de verdade quem eu sou – disse Eliseu.

– Sei que você é o cara que salvou minha vida e isso me basta. Se você me roubar,
não tem problema. Trabalho e compro tudo de novo. Vou avisar meus pais e meu
irmão que você irá morar lá em casa, para que eles não se assustem e você pode me
pagar à estadia cuidando do jardim, lavando meu carro, levando meu cachorro para
passear… viu, não vai ser de graça – finalizou soltando um grande sorriso.

Maria Cecília chamou o garçom e pediu a conta. Aquele anjo não iria mais lhe escapar.

Eliseu aceitou a proposta de Maria Cecília e passou a acreditar que Deus olhava por
ele. Estava perto da mulher por quem havia se apaixonado, tinha uma cama
confortável para dormir e aceitara o trabalho como caseiro. Cuidava do jardim e
diariamente saía com o labrador Theo para passear. Quando chegou à casa de Maria
Cecília, viu que era rica de verdade. Ninguém morava no Alto Leblon se não tivesse
muito dinheiro. Ela lhe contou que a casa fora a sua parte na partilha do divórcio e que
seu ex-marido era um grande empresário. Todas essas revelações lhe deram a certeza
de que jamais teria aquela mulher nos braços. Era um amor impossível. Mesmo que
fosse trabalhar na estatal nunca teria condições proporcionar aquele conforto, mas
sentia-se feliz em estar próximo dela, sentir seu perfume e sonhar com seu corpo
macio todas as noites.

Passados alguns meses, Eliseu voltava de um passeio com o labrador e entrou na
casa para entregá-lo como sempre fazia. Ao entrar na sala ouviu uma discussão. Os
gritos vinham da cozinha. Duas mulheres duelavam sobre sua permanência na casa.
Uma das vozes pertencia a Maria Cecília, a outra era da mãe dela. Paralisado, Eliseu
acariciava o cachorro enquanto a discussão continuava na cozinha. A voz de Maria
Cecília denunciava sua irritação.

– Eu não vou abrir mão dele. Sou uma mulher independente e sei muito bem me
proteger. Não preciso de ninguém para cuidar de mim.

– Filha, você não entende que só estamos preocupados com vocês.

– Já disse que não preciso que ninguém se preocupe comigo!

– Você mesma disse que esse rapaz era traficante. Quem nos garante que ele não
continua no mundo do crime, distribuindo drogas de bicicleta pela cidade. Você já
pensou nisso?

– Não, não pensei porque isso é absurdo. Eu confio nele, é estudioso, trabalhador, fez
besteiras, pagou e agora quer mudar de vida, você não pode acreditar que existam
pessoas assim?

– Não, não acredito. Ele está de olho no seu dinheiro. Está aqui tomando pé da
situação e um belo dia quando você chegar não vai ter nem a fechadura. Abre os olhos
Maria Cecília!

– Abre os olhos você, mãe! – Maria Cecília parecia fora de si – A casa é minha, o
dinheiro é meu e a vida é minha. Quem está correndo os riscos sou eu. Vocês não têm
nada com isso. Me deixem em paz!

Eliseu pensou em partir em socorro a Maria Cecília, mas sabia que sua presença iria
deixar a situação mais complicada ainda. Com medo de ser pego dentro da casa,
apressou-se a sair e foi para a garagem. De lá viu quando a mãe de Maria Cecília saiu
batendo o portão. Decidiu falar com sua amada, mas foi ultrapassado pelo labrador. Ao
entrar na casa ouviu choro vindo da cozinha, mas não teve coragem consolar a mulher
que amava. A mãe dela tinha razão. Não havia nada que pudesse a oferecer, a não ser
um passado de crimes. Não poderia afastá-la de sua família. A situação clareou diante
de Eliseu. Ele não a deixaria pagar um preço tão alto somente para ajudá-lo. Eliseu deu
meia-volta e foi para seu quarto, pegou suas coisas, colocou sobre a bicicleta e saiu da
casa sem que Maria Cecília percebesse. Eliseu sumiu entre os carros que iam em
direção à Gávea. Nunca mais sua amada iria sofrer por querer ajudar um ex-
presidiário.

A escuridão tomou conta dos cômodos da casa anunciando que a noite estava
chegando. Maria Cecília estranhou o fato de Theo ter entrada em casa sem que Eliseu
tivesse vindo para lhe falar. Então se deu conta de que ele poderia ter retornado do
passeio com o cachorro e ouvido as palavras ditas por sua mãe. Seu corpo foi
assombrado por um arrepio. Ela levantou-se num arroubo e correu para o quarto de
Eliseu temendo que ele tivesse ido embora. A porta aberta e a luz apagada lhe deram a
certeza de que ele ouvira as palavras de sua mãe.

Maria Cecília entrou em casa para buscar as chaves de seu carro. De posse delas
entrou no veículo de saiu de casa em direção a Botafogo. Tinha esperança de
encontrá-lo em sua barraca armada em frente ao posto de combustível.

Eliseu não estava em Botafogo. Ela foi até Laranjeiras, mas também não o encontrou.
Rodou com o carro até altas horas da noite passando pelos locais que ele costumava
frequentar, mas foi em vão. Voltou para casa chorando. Sua mãe havia conseguido seu
objetivo. Afastara Eliseu de sua vida. Ela agora estava novamente só.

Após aquela noite, Maria Cecília voltou muitas vezes aos locais onde imaginava poder
encontrar o anjo que salvou da morte, mas em todas retornou com o fracasso
estampado no rosto. Foram dias de choro e dor em que maldisse a sorte de não
encontrá-lo. Sentia sua falta. Poderia ter lhe dito que o amava e que nada iria afastá-
los, mas teve medo de não ser correspondida. Após três meses de intensa procura,
Maria Cecília começou a acreditar que nunca mais encontraria Eliseu. Havia perdido a
única chance de ser realmente feliz com alguém que se importava com ela de verdade.

Há mais de um ano que Maria Cecília perdera o contato com Eliseu. Com muito
trabalho conseguiu colocar para funcionar a sua ONG e seu programa de
oportunidades contava com mais de vinte famílias assistidas. Ela fechou acordos com
algumas empresas para priorizar a contratação das pessoas assistidas pelo sua ONG.
O programa estava se mostrando um grande sucesso. Precisava fechar mais acordos,
aumentar a oferta de novas vagas e com isso atender um número maior de pessoas e
fazer a roda do desenvolvimento familiar girar com maior velocidade.

Naquela manhã havia recebido um telefonema. Um diretor de recursos humanos de
uma distribuidora de refrigerantes se dispunha a oferecer emprego para os indicados
por Maria Cecília. Estava tudo acertado, faltava somente assinar o contrato. Para isso
ela marcou uma reunião no centro da cidade. Ela pegou um taxi e pediu para ir para o
Centro, próximo ao Largo da Carioca.

Maria Cecília pediu para o taxi parar na esquina das Avenidas Rio Branco e Almirante
Barroso. Faltavam poucos minutos para a reunião e ela não queria chegar atrasada.
Desceu o carro ainda com a carteira na mão de onde tirou o dinheiro para pagar a
corrida. Ao tentar guardá-la na bolsa, atrapalhou-se e deixou cair o envelope com o
contrato. Soltou uma praga e se abaixou para pegá-lo, mas outra mão se adiantou e o
pegou. Ela levantou os olhos para agradecer a gentileza e seu corpo ficou paralisado
pelo inusitado daquela situação. A boca entreaberta entre o espanto e incredulidade
não conseguia articular uma palavra. Como se tivesse aparecido do nada, Eliseu lhe
estendia o envelope com aqueles os olhos verdes que a hipnotizavam. Sim, ele estava
ali. O seu anjo havia caído do céu novamente. Maria Cecília se jogou nos braços de
Eliseu e colou sua boca na dele em um beijo carregado de saudade. Aquele anjo era
seu e nunca mais o deixaria partir.

O ano surge da boca do mar

Não se lembrava há quanto tempo tinha esse ritual incorporado ao seu novo ano. O fato é
que ele existia por si só e isso, mais do que uma obrigação ou um dever, tinha se tornado
para ela um prazer. O que lhe daria tanta alegria quanto estar ali, naquele momento,
celebrando seu reencontro com a vida? Não sabia. Talvez, quando tivesse essa medida de
intensidade, esse momento único que lhe acontecia uma vez por ano se tornasse ainda mais
significante e fosse a raiz de tudo que se lhe apresentasse no futuro.

Foi em 2000? Antes ou depois? Não importa. Na verdade tem para si que desde sua tenra
idade isso já assim se procedia, só que não tinha consciência da importância e do
significado que esse momento teria para sua vida.

Já havia se passado cinco dias do ano de 2007 e somente agora, para ela, ele iria começar. É
um calendário todo próprio, derivado do Juliano, mas com algumas particularidades. Não
tem dia certo para iniciar. Pode ser dia primeiro ou sete. Pode ser em janeiro ou até mesmo
março. Além disso não, porque não suportaria tanta ausência do mar. O que é essência
nisso tudo é que seja um dia de sol forte e céu azul, limpo ou com raras nuvens no céu. O
ano novo começava no primeiro dia em que ela pudesse ir ver o mar de dentro do Caminho
do Bem-te- vi, sentada sobre a sua pedra favorita. Ali, de olhos fechados, sentido o sal do
mar lhe invadir o peito e se depositar em sua derme, ela comemorava um novo ano.

Fora difícil encontrar uma vaga para estacionar. A Urca esta cada vez mais, como todo Rio,
inundada de carros e hoje, sábado, a procura desse recanto é cada vez maior.

Agora ela estava ali, sentada numa pedra, de frente para a entrada da Baía de Guanabara.
Ver aquela entrada, que se assemelha a uma grande boca tragando as águas límpidas do mar
aberto, como a tentar expulsar as águas fétidas que em alguns pontos banham as sua praias,
é fascinante. E esse céu azul, sem nuvens, em contraste com o verde da mata que circunda o
morro do Leme, faz a água parecer mais azul e a espuma branca que se forma quando ela
banha as pedras, brilha com mais intensidade.

É assim, admirando esse mar imenso se estreitando para depois se expandir e banhar as
praias que vão da Urca à Magé, no fundo da baía, que ela considerava que o ano realmente
começara, era novo!

Ali, sentada na pedra, ela rememorava tudo que lhe acontecera no ano que findara. O que
lhe fizera crescer, o que aprendera, aonde errara e o que deixara de fazer. Ali, numa
conversa entre ela e o mar, havia uma prestação de contas, íntima e pessoal, onde não há
lugar para reprimendas nem lamentos. É uma forma de celebrar a vida, pois essa menina, a
vida, não deve ser importunada com lembranças ruins.

Nada a Fazer

Os pingos da chuva açoitavam a lona da barraca em ritmo incansável. A luminosidade
opaca do dia pouco permitia ver o que acontecia do lado de fora. Eliseu consultou seu
velho relógio digital. Passava das sete horas. Acabara o descanso. Ainda dentro da
barraca, enrolou suas cobertas e as acondicionou em sacos plásticos, depois saiu e
iniciou o desmonte. Finalizada a tarefa, olhou para o posto de combustível do outro
lado da rua. Sua bicicleta ainda estava no mesmo lugar. Na noite anterior a deixara
presa a um poste por uma grossa corrente e um cadeado

Sem nenhuma pressa procurou em seus guardados a escova de dentes e o creme
dental, depois atravessou a rua para usar bica do lava-jato existente dentro do posto de
combustível. Após terminar sua higiene bucal, meteu a cabeça em baixo do jato de
água e deixou que seus dreadlocks se molhassem. Sacudiu a cabeça para escorrer a
água e voltou para a calçada empurrando a bicicleta. Em poucos minutos levantou
acampamento, colocando no bagageiro da bicicleta todos os seus pertences.

Maria Cecília se equilibrava na ponta dos pés tentando enxergar um taxi no
emaranhado de carros que deslizavam pela Rua Visconde de Pirajá. Há pouco mais de
uma hora havia saído de sua casa no Alto Leblon para fazer uma mamografia. Ao
chegar ao laboratório, descobriu que a máquina estava quebrada, mas que poderia
fazer o exame na filial de Botafogo. Ela conseguiu que um taxi a levasse ao local.
Depois de realizar o exame consultou seu relógio. Estava atrasada para sua aula de
Pilates. Caminhou apressada pela Rua General Polidoro em direção a Rua da
Passagem onde imaginou que seria mais fácil conseguir um taxi que a levasse de volta
ao Leblon.

Enquanto seguia pela calçada, disputava espaço com algumas bicicletas que fugiam da
ciclovia e teimavam em assustar os pedestres. Maria Cecília lembrou-se do tempo em
que morou em Paris para onde foi depois de uma longa temporada em Vancouver,
Londres e Barcelona, sempre acompanhando Beto no exercício de diversos cargos nas
empresas da família dele.

Conheceram-se na faculdade de economia onde ela entrara pensando em um dia ir
trabalhar no Banco Mundial. Queria ser uma cidadã do mundo. Estava sentada no
fundo da sala quando Beto entrou com seu cabelo louro e profundos olhos verdes. Foi
paixão ao primeiro olhar.

A vida no Canadá era muito cansativa. Em pouco tempo, Beto assumiu a diretoria de
distribuição com a missão de criar uma nova logística para colocar a cerveja em cada
canto do país. Ela fazia estudos para acompanhar os hábitos de consumo da
população local. Após longos seis anos, os dois foram para Chicago cursar um MBA.
Depois do curso foram para a Europa. À medida que Beto recebia maiores
responsabilidades nas empresas da família, eles se distanciavam. Ela queria filhos e
sentia saudades da mãe. Aos poucos a situação ficou insustentável e o amor acabou.

Com a cabeça tomada pelas recordações, Maria Cecília avistou um taxi parando a
poucos metros para deixar passageiros. Decidida a não perdê-lo acelerou os passos
atravessando a rua sem olhar para trás. Estava no meio da rua quando o barulho de
uma freada violenta lhe paralisou. Olhou para trás e se deparou com um caminhão de
lixo deslizando em sua direção. Seu coração acelerou e ela levantou os braços para
proteger o rosto na vã tentativa de escapar da tragédia.

Eliseu encostou sua bicicleta ao lado da porta da padaria e foi tomar seu desjejum. O
cheiro forte do café lhe remeteu ao tempo em que tinha uma casa e uma família. Tivera
uma boa educação, cursara uma boa faculdade, mas as más companhias e a
perspectiva do dinheiro fácil o levaram para o mundo do crime. Começou pegando
pequenas quantidades de cocaína para vender nas festinhas da faculdade. Em pouco
tempo era o traficante preferido dos playboys da zona sul.

Durou pouco a iniciativa de Eliseu. As facções do crime ficaram sabendo de um cara
que ameaçava tomar conta da distribuição de drogas no Rio de Janeiro e armaram
para que a polícia o pegasse em flagrante. Ele foi preso ao receber um carregamento
de uma tonelada de pasta de cocaína. Perdeu tudo. A justiça lhe tomou todos os bens
que havia comprado com o dinheiro do tráfico. Pagou advogados para conseguir uma
pena menor e ficou sem um tostão no bolso. No presídio ficou isolado. Todas as três
fações queriam sua cabeça. Foram oito anos até sair na condicional.

Eliseu acabou de comer o pão e tomou o último gole de café. Colocou a xicara no
balcão e se despediu da atendente. Preparava-se para partir quando foi interrompido
por uma freada brusca. A poucos metros, um caminhão de lixo ia ao encontro de uma
mulher. Gritos para que ela saísse da rua foram ouvidos, mas parecia que o medo a
deixara sem reação.

Foi automático. Eliseu largou a bicicleta e se lançou pegando a moça pela cintura e
caindo com ela a centímetros da sarjeta. Os pneus passaram rentes a sua cabeça e
suas narinas foram invadidas pelo o cheiro forte de borracha fritando no asfalto. O
caminhão parou a poucos metros deles e varias pessoas correram em seu socorro.
Tremendo muito, a moça custou a se levantar. Alguém a levou para a calçada e uma
cadeira apareceu trazida de algum lugar. Ela sentou-se e bebeu um copo de água que
se materializou na sua frente. Eliseu saiu discretamente, levantou sua bicicleta, montou
e seguiu pela Rua da Passagem em direção ao Túnel Novo em busca de seu sustento
diário.

Maria Cecília bebeu a água que lhe deram em pequenos goles. Suas mãos tremiam
sem parar e a respiração ofegante demorou em se recompor. Olhou para todos em sua
volta e não reconheceu seu salvador.

– Onde está o rapaz que me salvou?

A resposta foi sufocada pelos estampidos de três tiros. Todos que estavam à volta de
Maria Cecilia se voltaram para rua tentando entender o que havia ocorrido. A poucos
metros dali o corpo de Eliseu sangrava no asfalto molhado. Em segundos Maria Cecilia
chegou a seu lado, mas não havia mais nada a fazer. O anjo que salvara sua vida tinha
voltado ao céu.

Barriga Seca

UM levantou o nariz. No corredor escuro, úmido e frio trafegava uma brisa que
lhe arrepiava os pelos do nariz. Ele aspirou o cheiro de carne fresca. Seus
pulmões se encheram daquele odor que iria saciar sua fome. Assim que teve a
certeza de onde vinha o cheiro inebriante, saiu em disparada pelo corredor
pouco iluminado. Em pouco tempo chegou ao entroncamento da via principal.
Centenas de companheiros corriam afoitos numa mesma direção e ele teve a
certeza de que não fora o único a aspirar o sabor fresco da comida. Um
turbilhão avançava veloz como um rio caudaloso. Temeroso, se jogou no meio
da massa uniforme que seguia na mesma direção. Todos corriam
desesperados buscando serem os primeiros e conquistar o pedaço mais
saboroso. Subitamente a avalanche parou e todos que os acompanhavam
foram jogados sobre os que primeiro tinham chegado. Ofegantes, os olhos
vermelhos, os pelos dos corpos eriçados, esmagavam-se uns sobre os outros
tentando alcançar a entrada da caixa.

Um grito surgiu a seu lado como um esguicho.

– O que está acontecendo? Por que não podemos entrar? – o cara ao seu lado
parecia transtornado. Em pé, mostrava os dentes afiados salivando sem parar.

Nem uma resposta se ouviu no meio da multidão. UM se sentiu pressionado
pelo número cada vez maior de comensais que chegava para o banquete. Sua
barriga doía e os músculos retesados procuravam defendê-lo de quem estava
ao seu lado.

No meio da desordem UM identificou seu amigo. DOIS estava a poucos corpos
de distancia e lutava para chegar à frente da turba.

– Hei, DOIS! – seu grito não conseguiu se destacar na multidão. – Hei, DOIS!
Aqui! – nesse momento, vinda de algum lugar, uma brisa suave invadiu o
corredor quase escuro e por um momento fez-se silencio. O suficiente para que
sua voz cortasse o ar rarefeito e encontrasse os ouvidos de seu companheiro.

DOIS estava com as mãos húmidas e o nariz vermelho apontando para o teto.
Procurou identificar na multidão, entre tantos olhos vermelhos, aquele que lhe
gritara. Teve dificuldades para encontrar quem lhe chamara no meio daquela
massa homogênea. Com muita dificuldade conseguir identificar UM espremido
por outros tantos corpos e lhe gritou entusiasmado.

– Aí, é sempre assim quando chega a comida?

– Não – disse UM – hoje a turba está menor. Vai dar para pegar um bom
pedaço. – DOIS ficou sem saber se UM estava sendo sincero ou irônico.

UM sentia que a pressão estava cada vez maior e mais asfixiante. Naquele
corredor escuro e mal cheiroso, cheio de corpos amontoados soltando
guinchos esfomeados, a única razão que os mantinha quietos era a expectativa
de saciarem a fome com a carne fresca. O grupo estava ficando cada vez
maior e a cada dia ficava mais difícil alimentar a todos.

Mas – continuou UM com seus pensamentos – eles tinham um líder que, a
despeito das brigas internas, sempre os mantinha unidos. Havia respeito entre
eles e a sensação de dever para com os irmãos. Havia os que prospectavam
novos locais para moradia, os que buscavam novos pontos de alimento, os que
cuidavam da segurança. Cada indivíduo tinha a sua missão e sua
responsabilidade para com o grupo, mas a fome os fazia esquecer quaisquer
regras e convenções. Na fome era cada um por si.

Sentindo-se sufocado pela pressão que os corpos ao seu redor lhe faziam, UM
gritou o mais alto que pôde, na esperança de que alguém lá na frente o ouvisse
e iniciasse o processo de invasão.

– Não dá mais para esperar que a porta seja aberta. Temos que forçar a
entrada!

Suas preces foram atendidas. A turba começou a forçar a porta, uns se
jogando sobre os outros fazendo uma forte pressão até que a porta se rompeu.

Com a abertura, cada um tentou ser o primeiro a chegar à comida. Os mais
fortes passavam sobre os mais fracos, adultos deixavam jovens para trás. O
importante era comer.

Ao passar pela porta UM reparou um corpo caído ao lado e interrompeu sua
corrida. Aproximou-se devagar, rodeando o corpo inerte jogado no chão e já
cercado de formigas. Olhou com atenção os fios do bigode sobressaindo e
imediatamente identificou o morto. Sem dúvida alguma era o líder. O corpo
estava duro, esticado no chão úmido e a boca semiaberta. Súbito, algo naquele
cadáver lhe chamou a atenção. A barriga estava estufada.

UM gritou para chamar a atenção para a tragédia que ali se mostrava, mas a
turba faminta só pensava na carne. Os primeiros que chegaram abriram o
caminho através das frágeis placas de madeira que protegiam a carne de
comensais indesejados. Ele foi arrastado por uma mão fria que lhe jogou
novamente no meio da turba. Não havia tempo para pensar naquele momento.
Ficar parado significava morrer pisoteado. Ele escolheu participar do banquete
com os outros e foi mais um a cravar os dentes naquela coxa suculenta,
embora fria.

DOIS, a seu lado, parou por um instante com a boca cheia.

– Cara, isso é muito bom!

UM levantou os olhos e não deu resposta alguma. Apenas continuou a comer,
insanamente.

A lua cheia salpicava sua luminosidade sobre a brancura dos jazigos. Estava
tão claro que se podia ver alguém a metros de distancia. Por todo cemitério
pairava uma calma tranquilizadora. Já era tarde da noite e alguns pássaros
noturnos emitiam seus piares agourentos cortando a imensidão vazia.

Um homem soturno, um tanto corcunda, arrastava-se por entre as covas
espalhando pequenos bolos esbranquiçados e úmidos. Num rosnado, ele
vociferou entre os dentes – eu vou acabar com esses desgraçados – essas
palavras mostravam a determinação de quem queria exterminar de vez com a
praga que assolava o pequeno cemitério.

UM havia comido muito na parte da manhã, mas agora seu estômago doía de
tanta fome. Ele não gostava de vísceras, por isso não ficava comendo os
restos dentro dos sepulcros. O ar fresco da noite lhe fazia bem. Sobre a laje de
uma sepultura, ergueu-se sobre as patas traseiras e olhou para o céu
estrelado. Tinha dificuldades em entender por que tinham que viver em tuneis
escuros quando a vida do lado de fora era tão luminosa. Uma brisa leve passou
pelas suas narinas trazendo um cheiro delicioso. Ele farejou o ar em busca
daquele perfume e seguiu o aroma por entre as lajes até encontrar o pequeno
petisco. Um bolo branco com pedacinhos de carne, arroz e feijão. Uma alegria
incontida tomou conta de UM – Caraca! – Ele cravou os dentes no bolo
enchendo a boca e engolindo pedaços da suculenta iguaria. Comeu tudo. Não
sobrou nada. Ainda com os lábios sujos de comida começou a farejar a procura
de mais petiscos. Subitamente, sentiu uma grande sede. Precisava de água.
Sentia a boca seca, vazia. A cada segundo que passava sua sede aumentava.
Sua barriga estava se comprimindo, parecia que estava ficando pesada. Ele
correu desesperado de um lado para outro tentando encontrar o liquido vital
para sua vida. Os minutos foram passando e ele começou a sentir suas
entranhas secarem com um lago numa grande estiagem. Fraco, encostou-se
numa laje. As pernas não mais lhe obedeciam. Foi olhando o céu estrelado que
a morte o encontrou com a barriga dura que nem pedra.

No dia seguinte, o coveiro passou por entre as sepulturas recolhendo os
cadáveres dos ratos, mortos com a mistura de gesso e restos de comida. “esse
troço é melhor do que chumbinho” – pensou o coveiro numa felicidade sem fim.

Uma Aventura no Parque

Domingo:

O carro parou no estacionamento e a menina Kamille gritou:

– Tattoo! Chegamos!

Tattoo é um cachorro vira-lata, de pelo curto, preto, com algumas manchas brancas no
dorso e próximo aos olhos, parecendo tatuagens, daí seu nome: Tattoo. Muito bem, eles
haviam chegado… mas aonde? Ele tentava ver através das janelas do carro, mas não
conseguia ver muita coisa: apenas mais alguns carros parados, lado a lado, próximos a
uma cerca verde.

A mãe de Kamille desceu do carro e abriu a porta para a menina e o cachorro descerem.
Então, Tattoo viu um enorme espaço gramado onde poderia correr à vontade. Tentou
sair em disparada, mas estava preso a uma coleira. Kamille falou de forma carinhosa:

– Calma Tattoo!

Há muito tempo a menina dizia para ele que iria levá-lo a um lugar muito bonito, aonde
ele poderia correr sem se preocupar com os vários perigos existentes nas ruas: carros,
motos, bicicletas, caminhões… eram tantos que a mãe de Kamille dava somente um
pequeno passeio pela praça ao cair da tarde, mas agora estavam ali, no paraíso. O pai de
Kamille saiu em direção a umas grandes árvores e os chamou:

– Tatoo! Kamille! Vamos!

Foram andando lentamente, atravessando gramados, ruas tranqüilas, e passaram a
caminhar por uma grande alameda, ladeada por grandes árvores, até que chegaram a um
local que parecia ser o ideal para passarem um dia de festa. Era um pequeno gramado
com muitas árvores em volta e um lago de águas tranqüilas onde patos e gansos
nadavam à vontade. O pai de Kamille, então, tirou a coleira do pescoço de Tattoo e lhe
disse:

– Vai, Tatoo!

Tattoo, ao se ver sem a coleira, saiu em disparada em direção a colina do outro lado da
alameda. Ao chegar ao seu topo ficou maravilhado com o que viu. Lá embaixo, um
grande lago cheio de pedalinhos e muitas crianças soltando pipas, brincando com bolas
multicoloridas, correndo para lá e para cá numa algazarra contagiante. Tattoo desceu a
ladeira correndo e subiu outra colina e viu mais árvores e gramados imensos. Viu outros
cães, patos e gatos, muitos gatos, mas não parou para conversar, tamanha era sua excitação por conhecer cada canto daquele lugar, cada um com sua magia que apontava
sempre em direção a outros lugares mais e mais interessantes.

Longe de onde estava, lá, onde os pais de sua dona tinham ficado, o tempo havia
passado depressa. Já era hora do almoço e tinham que ir embora. Os pais de Kamille
recolheram o lixo do lanchinho que haviam tomado, separando o lixo de acordo com a
cor das latas para lixo reciclado: azul, para papéis e papelão; amarelo, para metais;
vermelho, para plásticos; verde, para vidros; e preta, para madeiras. Estavam com tudo
pronto para irem embora, só faltava Tattoo. Kamille começou a gritar pelo cão.

– Tattoo, Tattoo, vem cá cãozinho!

Apesar de todos os gritos, não conseguiam encontrar Tattoo. O cão havia se evaporado.
Outras crianças entraram na busca ao cachorro. Umas perguntavam com ele era, qual a
cor da coleira, se estava machucado, se era brabo, se não estranhava as pessoas. A todos
Kamille dizia que o seu cãozinho era muito amigo, gostava de crianças, era obediente e
adorava sair correndo atrás de uma bolinha de borracha, mas apesar de todos os esforços
Tattoo não foi encontrado e Kamille teve que ir embora do parque chorando a perda de
seu grande amigo.

Quando Tattoo decidiu voltar ao lugar onde deixara a menina Kamille, não sabia como
retornar. Todos os lugares lhe pareciam ser iguais, todas as menininhas de cabelo curto
e corpinho magrinho lhe pareciam ser a sua dona, mas não eram. Caminhando agora por
trás de um grande prédio viu um gramado que descia até uma estrada. O gramado estava
apinhado de crianças e adultos brincando de bola e soltando pipas. Do outro lado da rua
havia uma cerca onde ele viu vários animais que nunca tinha visto antes e uma deles lhe
chamou muita a atenção: era uma espécie de galinha cinza, muito alta e muito grande,
com o pescoço todo pelado. Continuou caminhando ao lado da cerca quando, ao dobrar
uma esquina, viu o lago e imediatamente identificou o lugar onde tinha visto sua dona
pela última vez. Correu em disparada até local, mas chegando lá não havia mais
ninguém. Sentia o cheiro da menina e de seus pais, mas não conseguia vê-los. Talvez
tivessem ido lhe procurar e o melhor que faria era ficar ali até que eles voltassem para
lhe pegar. O tempo foi passando, a fome apertando e nada deles voltarem… o parque foi
ficando cada vez mais vazio, o céu foi escurecendo e ele ficando cada vez mais sozinho.

E agora? O que iria fazer? Deveria ficar ali, esperando pela volta de seus donos ou
deveria ir procurá-los? Não, não poderia achá-los… tinham vindo de carro e demoraram
tanto que ele tinha a certeza de que estava muito longe de casa. Por outro lado, as ruas
estavam repletas de pessoas com tantos cheiros diferentes que seria quase impossível
encontrar o cheiro da menina e segui-lo. Não, deveria ficar ali e esperar… mas se ela não
voltasse antes de anoitecer? E se ele tivesse que ficar ali, sozinho… e se fizesse frio… e
sua fome, quem lhe daria comida e água? Como fora descuidado… distraíra-se e agora
estava em uma enrascada… e se a menina Kamille não viesse mais lhe procurar, como
iria fazer para sobreviver… teria que ficar morando naquele lugar ou seria melhor sair
em busca de outro lar?

Eram tantas as perguntas que assaltavam a cabeça de Tattoo que ele foi ficando muito
cansado e se deitou ao lado de uma árvore… depois de muito pensar tomou uma
decisão: não iria a lugar algum. Ficaria ali. A menina Kamille iria retornar para lhe
buscar. Ele esperaria o tempo que fosse necessário, chovesse ou fizesse sol, não
arredaria o pé daquele lugar. Tinha absoluta certeza de que sua dona não lhe
abandonaria… e assim pensando adormeceu.

Acordou com a noite escura, a barriga roncando de tanta fome e a garganta seca pela
sede. De onde estava podia ouvir urros de estranhos animais que pareciam ser ferozes.
A noite estava fria e ele se enroscou, tentando melhor se agasalhar para se proteger do
frio.

– Ih, tem sangue novo no parque!

Tattoo acordou assustado com aquele grito e rosnou para um gato malhado que estava
na sua frente sorrindo com jeito de malandro.

– Sai fora, gato! Eu sou ninja e estou em treinamento, eu sou um perigo para você. Sou
uma máquina de músculos fortes e já derrubei muito gato do telhado.

Com essas palavras Tattoo tentava meter medo no gato e procurava se proteger. Sempre
vira desenhos com Kamille e sonhava ser um herói como Bilú Bilú, um cachorro muito
esperto que vivia entre ninjas e sabia lutas marciais. Ele sempre ajudava seus donos a
resolverem grandes mistérios e no final da estória sempre ganhava um grande pedaço de
pizza. Agora era encarar esse gato estranho como um inimigo feroz e fazer valer todo o
treinamento que havia realizado com Bilú Bilú, quer dizer, visto no desenho do Bilú
Bilú.

O gato olhava tudo aquilo de forma muito divertida. Branco, com listras laranjas,
bigodes imensos e olhos de um azul profundo, ele balançava a cabeça pensando:

– Coitado do cãozinho, deixaram ele aqui e na primeira noite já ficou tantã.

O gato deu meia volta e se afastou indo se enroscar num tronco de árvore afastado do
local onde estava o cão. Tattoo voltou a se proteger do frio e adormeceu querendo
sonhar com a menina Kamille.

Segunda-feira:

– Booooom dia!

Ao ouvir aquele grito Tattoo deu um salto e começou a latir, procurando o autor daquela
brincadeira sem graça. Perto dali, o gato ria-se de perder o fôlego. Rolava no chão sobre
o próprio corpo e quanto mais o cão latia, mais ele gargalhava.

– Caraca! Há tempos eu não me divertia tanto!

– Seu gato sem graça, não tem nada para fazer, além de acordar os outros de forma tão
estúpida?

– Ih, foi mal meu camarada… aí, vamos começar de novo? Eu sou Bichano, o gato mais
charmoso do pedaço!

– E também o mais convencido…

– Que é isso meu chapa? Vamos lá, está um belo dia… veja esse sol, essas pessoas
correndo, se exercitando, sinta o perfume da manhã… não é uma maravilha?

– Só se for para você. Eu nunca dormi fora de casa, aliás eu moro em apartamento, ando
de elevador e sou muito querido pela minha dona.

– Sei, estou vendo…

O gato falava de modo irônico, andando em volta do cão.

– Quer parar de ficar dando voltas! Isso está me irritando…

– Ih meu chapa você se irrita à toa… já te falei que meu nome é Bichano? e o seu?

– Bichano? Mas que nome mais esquisito!

– Se é esquisito ou não, eu não me importo. É assim que as pessoas me chamam quando
vêm me dar comida. Antes de chegar aqui eu já tive outros nomes, mas confesso que
esse é o que me dá mais apetite, e você: como se chama?

– Meu nome é Tattoo.

– Cara, que nome mais esquisito…

– Ih vê só quem fala…

– Como é que você veio parar aqui?

– Vim passear com a minha dona e seus pais e me perdi deles…

– Isso acontece sempre com animais que não estão acostumados com as ruas. Presta
atenção: aqui sempre aparece alguém para nos dar comida e água. Às vezes vem ração
da boa, outras vezes é resto de comida dos humanos e aí pode pintar um osso para roer.
Eu gosto mais é quando vem sobra de peixe, é uma delícia! Olha lá, aquele velhinho de
chapéu de palha é um dos quem trazem comida. Vamos lá!

Nem bem completou a frase, Bichano saiu em disparada para o local onde o velhinho
colocava ração em um pratinho de plástico sobre o meio-fio, junto a um baciazinha com
água.

– Vamos lá, cara! É comida da boa.

Tattoo e Bichano encheram suas barrigas de ração e após beberem água se deitaram à
sombra de um imenso pé de jamelão. Bichano virou-se para Tattoo e perguntou:

– E então, você vai ficar por aqui ou vai sair em busca de outros ares?

– Vou ficar aqui e esperar minha dona vir me buscar. Tenho certeza de que ela está com
muitas saudades de mim… e eu dela.

– Olha só: eu não quero te desanimar, não, mas já vi muitos animais serem deixados
aqui para sempre. Se eu fosse você não contaria com esse retorno, não.

– Eu vou esperar aqui, pois tenho a certeza de que eles virão me buscar.
Tattoo fechou os olhos e adormeceu. Sonhou que estava correndo com Kamille na beira
da praia e que os dois rolavam abraçados pela areia.

Terça-feira:

A árvore onde Tattoo resolvera fazer seu acampamento ficava próxima a uma alameda
que era margeada por um canal onde os patos nadavam em busca de alimento e as
garças vinham ao final da tarde para pegar alguns peixinhos. Tattoo caminhava célere
pela alameda em direção ao local onde o velhinho diariamente deixava uma porção de
ração. Ao avistá-lo, Bichano correu em sua direção e, quando chegou perto, saudou-o,
dizendo:

– Olá, meu caro Tattoo! Como foi a noite passada?

Tattoo respondeu com cara de poucos amigos. Parecia estar chateado.

– Bem.

– Aí, meu irmão, você está aborrecido?

– O que é que você acha? Há duas noites que como mal, durmo mal e ainda tenho más
companhias, tá bom para você?

– He, he, he… liga não, camaradinha. A vida é mesmo assim. Você tem sorte de ainda
não ter sido comido por um leão… então, vai embora ou vai continuar esperando uma
menina que nunca irá voltar?

– Ela virá, tenho certeza.

– Olha só, que tal a gente ir tomar sol do outro lado da Alameda das Sapucaias?

– E onde fica isso?

– É aquela rua do portão principal que vai direto para o museu. Do outro lado tem um
vasto gramado onde a gente pode brincar à vontade.

– Tá legal, mas vamos primeiro comer.

Quarta-feira:

O dia amanheceu nublado. Durante a madrugada ventara bastante e fizera muito frio.
No meio da noite Tattoo acordara com dor na barriga. Tentara levantar-se, mas não
conseguira. Estava muito fraco. Durante o restante da noite, a dor na barriga só
aumentara e agora, com o dia claro, ele mal tinha ânimo para abrir os olhos. Bichano
dormira ali por perto e ao acordar foi falar com Tattoo. De longe, ao ver o cão todo
enrolado, achou muito estranho e ao chegar mais perto falou animado:

– E aí Tattoo, o sol já se levantou e você ainda enroscado nessa árvore? Vamos levantar
que a vida é curta meu amigo!

Tattoo tentou abrir os olhos, mas só consegui soltar um grunido.

– Ih, meu camaradinha, tu estás mal. Eu te falei para comer somente ração, nada mais…
e agora? Como é que vamos fazer?

Tattoo fez um enorme esforço para falar com Bichano:

– Tenho que ir ao veterinário.

– Veterinário!!! Tá maluco, meu camarada? Você não está no apartamento da
menininha, não! Você está perdido em um parque enorme tendo por companhia apenas
um gato, charmoso, bonito, elegante, mas um gato! Como vamos arrumar um
veterinário? Bem, vou dar uma volta por aí para ver se arrumo alguma coisa para você.

Dizendo isso, Bichano saiu caminhando lentamente em direção ao local onde as pessoas
deixavam comida para eles. Ia pensando na dificuldade que teria para levar para Tattoo
quando viu o velhinho e apressou as passadas para encontrá-lo.

– Ora, você está aí, meu amiguinho. Como passou a noite? Foi tudo bem? Cadê o seu
amigo malhado?

Bichano foi até o velhinho e voltou. Parou no meio do caminho e ficou esperando que
ele o seguisse. O velhinho ficou parado no mesmo lugar e ele foi novamente ao seu
encontro. Se enroscou em suas pernas e depois saiu andando, olhando para trás, pedindo
que o velhinho o seguisse.

– Ah, você está querendo que eu o siga? É isso, gatinho?

Bichano concordou com a cabeça e saiu andando na direção onde se encontrava Tattoo.
O velhinho o foi seguindo e quando viu Tattoo enroscado ao próprio corpo apressou o
passo. Chegando perto de Tattoo ajoelhou-se a seu lado e perguntou:

– O que está havendo meu camarada? Parece que você não está nada bem… vamos ver
essa língua… abra a boca para que eu veja como ela está… assim… isso… hum… parece
que a coisa é séria… fique aqui que vou buscar ajuda.

O velhinho foi saindo apressado, mas ao ver Bichano inquieto, como que a esperar por
um boa notícia, lhe falou:

– Bichano, você foi muito esperto ao pedir ajuda para seu amigo. Vou procurar quem
possa ajudá-lo de verdade, pois não sou veterinário, e já volto. Fique aqui de olho nele.
Dito isto, ele saiu apressado para os lados do zoológico. Bichano se aproximou de
Tattou e lhe falou:

– Tatoo, meu camaradinha, fique firme aí que esse velhinho é muito legal e conhece
muita gente por aqui. Com certeza vai trazer ajuda e você vai ficar bom.
Com muito esforço Tattoo abriu os olhos e falou para Bichano:

– Obrigado, meu amigo.

O tempo ia passando muito rápido para Bichano e a demora do velhinho em voltar com
ajuda estava lhe angustiando. Ele dava voltas e mais voltas ao redor de Tattoo e ficava
cada vez mais apreensivo. Nisso ele escutou o barulho de passos se aproximando e se
voltou em sua direção. Era o velhinho que vinha voltando e trazia consigo um casal de
pessoas. Quando chegaram perto o velhinho lhes falou:

– Ali está ele!

O rapaz, ao chegar perto de Tattoo, prendeu-o com um laço que estava preso na ponta
de uma vara. Tattoo ficou imobilizado e não esboçou qualquer reação. A moça se
aproximou e começou a lhe examinar. Abriu seus olhos para ver as suas pupilas, abriu
sua boca para ver a sua língua, apalpou sua barriga, auscultou seu coração, passou a
mão por todo seu corpo a procura de parasitas e por fim falou:

– Os sintomas indicam que ele provavelmente comeu alguma coisa que não lhe fez bem.
Vamos aplicar-lhe um antibiótico e esperar a sua reação. É bom colocar água e comida
perto dele para que se hidrate e se alimente quando sentir sede e fome.

Após aplicarem a injeção em Tattoo, o casal de veterinários que trabalhava no zoológico
e o velhinho deixaram o cão e o gato descansando e foram embora. Durante a tarde e a
noite, Bichando não arredou o pé de perto de Tattoo. Como podia isso, Bichano se
perguntava, conheciam-se há tão pouco tempo e para ele Tattoo era como um velho
amigo.

Quinta-feira:

Tattoo acordou com uma brisa soprando seu pêlo. Levantou a cabeça e viu um outro cão
aproximando-se de sua ração. Não, ele não deixaria ninguém pegar sua comida. Ainda
estava fraco, mas se perdesse aquela comida teria que ficar com fome até que o velhinho
voltasse no final da tarde… e se ele não voltasse? Ao ter esse pensamento, Tattoo se
levantou e avançou sobre o outro cão, latindo e rosnando de forma ameaçadora. O outro
cão respondeu no mesmo tom. Latia e rosnava mostrando seus dentes afiados. Tattoo
não se intimidou e saltou sobre o outro cão que, ao ser atingido por Tattoo e perceber
que o outro era mais forte do que ele, bateu em retirada. Tattoo ficou latindo, vendo o
outro cão se afastar, para afugentá-lo ainda mais. Com o outro cão distante de sua
comida, Tattoo se aproximou da ração e começou a comer.

– Aha! Vejo que você já está em perfeito estado de saúde.

Bichano falava isso enquanto se aproximava de Tattoo.

– Que luta, meu amigo. Você é um cara assustador, forte e audaz. Podemos ganhar umas
lutas aqui no parque e pegar a comida dos outros bichos, que tal?

– Para que quero mais comida se já tenho o suficiente para mim?

– Então vamos lutar somente para que os outros saibam que nós somos os maiorais do
pedaço!

– Nós quem, cara pálida? Que eu saiba você está pretendendo que eu lute, logo, se eu
ganhar, eu serei o maioral, não concordas?

– Claro, claro… eu serei apenas seu empresário…he, he

– Vamos acabar com esse negócio? Eu não quero lutar com ninguém, só quero voltar
para minha casa e para minha dona, capitte?

– Capitte? O que isso quer dizer?

– Isso é italiano e quer dizer “entendeu”.

– Ah, entendi… vamos dar uma volta por aí e aproveitar melhor nosso dia?
Os dois saíram em animado bate-papo subindo pela rua que passa por trás do museu,
indo em direção a entrada principal do parque.

Sexta-feira:

Tattoo dormia tranqüilo quando acordou com um grito:

– Olha lá! Um cãozinho!

Tattoo abriu os olhos e viu uma menininha correndo em sua direção. Balançou a cabeça
tentando enxergar melhor aquela criança, mas não a reconheceu como sua dona. A
menina chegou perto dele e falou de forma alegre:

– Oi, amiguinho, tudo bem?

A menininha passou-lhe a mão pela cabeça fazendo um carinho e Tattoo ficou
encantado com sua gentileza. A menina pegou uma bolinha e jogou-a para longe
dizendo para Tattoo:

– Vai, amigo, pega a bolinha!

Mas Tattoo ainda não havia despertado totalmente e sua barriga, roncando, denunciava
que ele estava faminto, pois ainda não havia tomado o café da manhã. Ele se levantou
preguiçosamente e deu dois latidos para a menina e saiu em direção ao local onde o
velhinho deixava a sua porção diária de ração.

A menininha correu atrás dele e chegaram quase juntos ao local justo no momento em
que o velhinho chegava.

– Olá, meu amigo malhado, como vai? Tudo bem com você? Está com fome? Venha, eu
lhe trouxe uma comidinha bem gostosa.

Enquanto falava com Tattoo, o velhinho colocava uma porção de ração em um pratinho
e água em outro. A menina ao ver o velhinho alimentar Tattoo indagou:

– Esse cachorro é seu?

– Não! Eu apenas trago água e comida para os animais que são abandonados no parque.

– Então esse não tem dono?

– Eu creio que não.

– Então posso ficar com ele?

– Eu creio que sim, mas acho melhor você conversar sobre isso com seus pais. Eles
gostam de cachorro?

– Sim, gostam muito.

– E você mora em casa ou apartamento?

– Moro em apartamento, por que?

– Porque um cão precisa de espaço e requer muitos cuidados.

– Como assim, “cuidados”?

– Você, ou seus pais, têm que o levar para passear diariamente, dar banho, colocar água
e comida, levar ao veterinário regularmente, enfim, uma série de coisas que você tem
que falar com eles para saber se pode ou não levar um animal para casa… e depois tem
que saber se o nosso amiguinho aí vai querer ir com você.

Tattoo a tudo ouvia enquanto comia. Não, ele não iria para nenhuma outra casa que não
fosse a da menina Kamille. Ao ter que ir para outra casa, preferia ficar no parque, ali ele
já se sentia em casa. Acabou de comer, bebeu um pouco de água e saiu andando em
direção ao lago pensando em lá encontrar seu agora amigo Bichano.

Ao chegar ao lago, viu que o gato não estava por lá. Deitou-se perto de uma árvore e viu
a mesma menina se aproximando. Ela era morena, com cabelos compridos e nariz
arrebitado. Estava com um vestido cor-de- rosa com flores brancas e descalça.
Aproximou-se de Tattoo e sentou-se a seu lado.

– Você me deu uma canseira danada, meu amiguinho. Corri muito até aqui e quase caí
subindo a ladeira. Olha só, tenho uma proposta para você: vamos brincar e quando eu
for embora eu falo com meus pais para ficar com você. Se eles concordarem você
poderá ir morar comigo, que tal?

Tattoo latiu para ela concordando com a proposta e levantando-se, pegou um pequeno
galho de árvore e o deixou aos pés da menina, que entendeu que ele queria brincar. A
menina pegou o galho e o arremessou longe. Tattoo saiu correndo para pegá-lo e o
trouxe novamente para a menina.

O dia transcorreu cheio de brincadeiras para os dois. Tattoo foi se afeiçoando a menina
e em certos momentos até achou que seria legal morar com ela. Subiram e desceram
varias vezes os gramados que margeiam o museu, correram atrás dos patos perto do
lago, lancharam e até chuparam picolé. Ao fim da tarde a menina ouviu sua mãe lhe
chamar para ir embora. Tattoo se aproximou da menina, fez um afago em sua perna e
foi embora para o local onde dormia. O parque ainda estava cheio e a menina Kamille
ainda podia vir lhe buscar.

Sábado:

Tattoo abriu um olho de cada vez. O céu estava claro, com poucas nuvens. Tudo
indicava que seria um lindo dia de sol e o parque ficaria repleto de crianças. Hoje está
fazendo sete dias que ele havia sido deixado no parque e a saudade da menina Kamille
fazia com que esses dias parecessem uma eternidade. Ali não era não ruim. Havia feito
amigos, tinha sempre alguém para trazer comida e água fresca, mas faltavam aqueles
olhinhos lindos e aquela voz fininha de criança a lhe chamar para brincar. Tattoo havia
colocado todas as suas expectativas naquele dia, pois era o primeiro dia do final de
semana e eles poderiam retornar. Mas, e se eles não voltarem? Não, eles voltariam. A
menina Kamille não o deixaria no parque para sempre.

– Ahá! Você está aí!

Bichano chegara de mansinho para tentar surpreender Tattoo e quase conseguira, mas
Tattoo sequer mexeu as orelhas com o grito do gato. Olhou para ele como se estivesse
vendo um prato de ração após passar o dia inteiro comendo, ou seja, enfastiado. O gato
começou a saltar de um ponto para outro na vã tentativa de mexer com o cão, mas ele
continuava impassível.

– Como é que é, seu cão manhoso? Vai ou não, se levantar? Se demorarmos muito para
ir comer, quando chegarmos lá os gansos poderão ter comigo tudo.

Tattoo virou-se de um lado para o outro, esticou as pernas e calmamente começou a
lamber as patas. Vendo que o gato ficava cada vez mais impaciente resolver falar:

– Sabe que dia é hoje, gato gorducho?

Bichano respondeu sem atentar para o adjetivo que Tattoo lhe aplicara.

– Hoje é dia de comer, correr, namorar, passear, comer, passear, namorar, comer e…
dormir.

– Gato preguiçoso! Você só pensa em comer e dormir?

– Namorar, também.

Bichano respondeu sorrindo, para em seguida perguntar:

– Que bicho te mordeu hoje, meu camarada?

– Hoje faz sete dias que minha dona me esqueceu aqui…

– Esqueceu, não, meu camarada! Vamos falar a verdade verdadeira, sem floreios: você
se mandou para o outro lado do parque e esqueceu a hora de ir embora. Seus donos
provavelmente ficaram aqui lhe chamando, gritando e você faceiramente estava atrás de
alguma cadelinha vira-lata, não foi mesmo?

– Isso agora não tem a menor importância. Hoje é sábado e eles poderão vir aqui me
buscar.

– Olha, eu não quero ser pessimista, não, mas… e se eles não voltarem, e se pegaram
outro cão para criar… você está apostando de mais nessa volta e é bom ficar preparado
para o caso de eles não voltarem.

– Eles vão voltar.

Dizendo isso, Tattoo se levantou e começou a caminhar em direção ao local onde
deixavam a ração sendo seguido por Bichano. Tattoo caminhava tentando se convencer
que os receios de Bichano eram infundados. Seus donos retornariam ao parque para lhe
buscar e seria hoje.

Após comerem e saciarem a sede, os dois caminharam em direção ao estacionamento
que fica próximo ao portão principal, mas àquela hora somente as pessoas que faziam
exercícios físicos estavam presentes no parque. Bichano chamou Tattoo para irem até a
área onde ficavam as avestruzes e cervos. Ali, sempre tinha uma comida diferente,
pessoas diferentes e, também, muitas crianças, mas o cão se recusou a ir a qualquer
outro lugar e voltou para o local onde tinha estado com a menina Kamille pela última
vez.

Já passava do meio-dia quando Bichano retornou de seu passeio e encontrou Tattoo
deitado no mesmo lugar, com os olhos fechados e foi logo perguntando:

– Então, alguma novidade?

– Você está vendo alguma novidade aqui?

– Ei, calma aí, meu camarada! Não tenho nenhuma culpa se você foi deixado aqui. Você
está sendo muito ingrato comigo.

– Você tem razão, me desculpe. Já ouvi vozes de tantas crianças, mas a voz de minha
dona eu não ouvi.

– Olha só, cara, ainda é cedo… eles ainda podem vir…

– Sei não… acho que você tem razão… talvez eles já tenham comprado outro cachorro e
terei que ficar aqui para sempre.

– Ficar aqui para sempre não é tão ruim… nós poderemos ficar sempre juntos, um
ajudando ao outro, fazendo companhia…

Tattoo voltara a fechar os olhos e a sonhar com a menina Kamille correndo em sua
direção, gritando seu nome.

– Tattoo, Tattoo, é você meu amiguinho!

Ele corria em sua direção, lhe derrubava no chão e fazia festa para todos. A menina
Kamille lhe abraçava e rolavam pela grama, felizes.

– Tattoo, Tattoo!

Epa! Não estava sonhando, conhecia aquela voz. Tattoo abriu os olhos e viu a menina
Kamille correndo de braços abertos em sua direção. Ele se levantou e começou a abanar
o rabo e a latir.

– Bichano! Ela veio! Ela veio!

Tattoo saiu correndo ao encontro da menina e de seus pais. Latia sem parar e pulava
sobre os pais da menina numa felicidade incontida.

– Tattoo, como senti sua falta meu amiguinho. Manú! Olha aqui! Eu encontrei o Tattoo!
A menina Kamille mostrava Tattoo para sua amiguinha Manuela e as duas começaram a
brincar com o cão. De longe, assistindo a tudo, Bichano achava graça da felicidade de
seu amigo e pensou em como seria bom se também tivesse um lar onde pudesse ser tão
querido. Tattoo, ao ver seu amigo distante, chamou-o para brincarem juntos, mas
Bichano não se animou. Tattoo, então, levou as meninas para brincarem com Bichano e
ora um corria atrás do outro, ora eles corriam atrás das meninas.

Já estavam brincando há bastante tempo quando os pais das meninas as chamaram para
ir embora:

– Vamos embora meninas?

Foi então que a menina Manú pediu a seu pai para levar o gato para casa, dizendo que
ele era muito fofinho e que estava apaixonada por aquele gatinho charmoso. O pai de
Manú consentiu e ela, feliz, foi pegar o gato para levar consigo.

– Você vai morar comigo, gatinho. Você é muito lindo e será muito feliz na minha casa.
Agora que sou sua dona, vou lhe dar um nome. Deixe-me ver…hum… já sei! Janjão!
Você vai se chamar Janjão.

A tarde começava a fugir por trás das montanhas quando Tattoo partiu de volta para
casa com Kamille e Bichano, que passou a ser chamado de Janjão, partiu em direção ao
seu novo lar no colo de sua dona.

TOC TOC E ROI ROI ROI

O martelo Toc Toc e o serrote Roi Roi Roi vivem no sitio do Nhô Serafim. Toc Toc tem
o cabo amarelo com uma lista vermelha e Roi Roi Roi tem, também, o cabo amarelo.
Nhô Serafim, sempre que termina de trabalhar com eles, os coloca numa grande placa de
madeira pregada na parede da garagem do trator, onde existem suportes para todas as
ferramentas do sitio.

Roi Roi Roi e Toc Toc são ferramentas muito úteis no sitio. Roi Roi Roi ajuda no corte
de arvores para fazer cerca, estábulo, paiol, mesas, cadeiras e tudo mais que for possível
fazer com a madeira.

Toc Toc ajuda no martelar e na retirada dos pregos, no fincar das estacas, na fixação das
cercas e na quebra dos côcos retirados do pomar.

Os dois gostam muito de trabalhar em conjunto e adoram quando são pegos pelo Nhô
Serafim, pois sabem que sempre irão ajudar a fazer algo de muito útil para o sitio.

Mas o que eles gostam mesmo é quando Nhô Serafim, no final do dia, começa a trabalhar
fabricando brinquedos de madeira para o menino Matheus, seu netinho. Com caprichosa
paciência ele vai construindo os mais variados e divertidos brinquedos: carro, pião,
trenzinho, cavalo-de- pau e até uma jangada, daquelas utilizadas pelos pescadores para
enfrentar o mar.

Quando o menino Matheus visita seu avô, para eles é a maior diversão. Isso porque o
menino pede ao seu avô que o deixe brincar de construtor e coloca Toc Toc e Roi Roi Roi
na sua caixinha de ferramentas.

Nhô Serafim sempre acompanha o menino Matheus nas suas brincadeiras para que ele
não se machuque brincando, mas Toc Toc e Roi Roi Roi somente são utilizados pelo
Vôvo. Eles fazem caixinhas, cadeiras e mesinhas, o que deixa o menino Matheus
extremamente feliz.

Quando terminam de brincar, Toc Toc e Roi Roi Roi voltam para seus lugares na placa
de ferramentas e ficam esperando ansiosos o retorno do menino Matheus para novas e
divertidas brincadeiras.

Janjão – O Gato Preguiçoso

Para Manú

A menina colocou a comida do gato em um pratinho. Provou com a ponta do dedo e fez
cara de quem gostou. Pegou o pratinho e o colocou no chão, próximo a pia da cozinha.
A mãe estava agitada porque pressentia que iria chegar atrasada ao trabalho mais uma
vez:

– Manú, já colocou a comida do gato?

– Sim, mamãe.

Com todo cuidado ela arrumou o pratinho sobre um pedaço de jornal. Sabia que o gato
era um tanto desajeitado e brincalhão e que sempre deixava cair um pouco de comida no
piso da cozinha, o que deixava sua mãe extremamente irritada.

– Manú, eu já estou indo. Pegue a sua mochila e vamos embora?

A menina então chamou o gato.

– Psiu, psiu, psiu… Gatinho… Vem comer…

Janjão, esse é o nome do gato, virou-se lentamente para a menina e abriu os olhos com
enorme sacrifício. Esticou as pernas, rodou a cabeça e começou a lamber o peito. A
menina vendo aquilo apressou o gato:

– Janjão, vem aqui seu gato preguiçoso!

O gato fechou os olhos e virou-se para o outro lado, ignorando completamente os apelos
da menina que foi até a sala e o sacudiu levemente. Ele se levantou, andou alguns
passos e deitou-se novamente. A mãe da menina, perdendo completamente a paciência,
falou:

– Manú, deixa esse gato aí! Quando ele tiver fome ele vai comer! Vamos embora se não
você vai perder o lanchinho da manhã na escola.

Ah, isso, não. Não iria ficar com fome até a hora do almoço por causa do Janjão.

– Estou indo! Tchau Janjão. Coma e descanse bastante.

O gato não lhe deu a mínima atenção. Continuou cochilando até ser despertado por um
barulhinho.

– “Ih, cara, acho que estou com fome… minha barriga esta roncando pra caramba!”

Pensou isto e abriu a boca num enorme bocejo, mostrando seus dentes afiados e a língua
muito vermelha, mas a preguiça era tanta que ele limitou-se a olhar para o pratinho com
a comida e voltou a fechar os olhos em mais um cochilo.

Passado algum tempo, o gato voltou a ser incomodado pelo seu estomago. Sua barriga
agora roncava mais alto. Ele abriu os olhos, espreguiçou-se e ficou olhando o pratinho
de comida como que querendo puxá-lo com a força do olhar. De repente ele viu um
ratinho cruzar a porta carregando um pedacinho de sua comida. Ele achou que estava
sonhando. Imagina, um rato na casa… Seria um desrespeito completo à sua autoridade!
E assim pensando cochilou mais uma vez…

Um barulho de patinha sobre papel lhe acordou novamente. Ele sentia a garganta seca e
o estômago cada vez mais vazio, mas seu corpo lhe pedia para ficar deitado. Ele esticou
as pernas, passou a língua pelos bigodes e ficou com os olhos semi-serrados. Estava
assim, indagando-se, intimamente, se já era hora de se levantar quando viu dois ratinhos
carregando pedacinhos de sua comida. Êpa! A coisa estava ficando séria… não, não
poderia haver ratos naquela casa pois ela contava com um valoroso caçador de ratos, o
gato mais temido da região. Rato algum se atreveria a entrar em sua casa.
Provavelmente estava sonhando… e assim pensando rolou para o outro lado e fechou
novamente os olhos num leve cochilo.

Hum… estava escutando um barulho. Snif, snif, snif… pelo cheiro devia ser rato. Ho, ho,
ho, o dia estava quente e sua fome lhe trazia o cheirinho de comida, mas espera aí! Ele
não comia ratos, apenas os caçava. Gostava mesmo era daquela comidinha que vinha
naquela latinha maravilhosa… sua boca se encheu de água ao pensar naquela comidinha
com sabor de atum fresco. Então, se não estava caçando ratos e estava deitado em seu
tapete preferido, é lógico que estava em casa. Então ele abriu os olhos e viu três ratinhos
carregando um pouco de sua comida.

Há, há, há, seria engraçado mesmo se um rato resolvesse desafiá-lo em sua própria casa
e comer o seu almoço, imagina três… não, nenhum rato cometeria tal sandice, seria
morte certa, ele era um gato famoso na região conhecido como o mais esperto caçador
de ratos daquelas bandas…não, estava vendo coisas… a fome estava lhe pregando uma
peça para que ele se levantasse e fosse até a cozinha… não, não, não… a fome não
domina um gato, um gato é senhor dos seus sentidos e o seu sentido mais importante lhe
dizia que era para ficar um pouco mais deitado, descansando o corpo para os passeios
noturnos.

Agora sua barriga lhe doía. Abriu os olhos, decidido a se levantar. Começou a lamber os
olhos… um gato devia estar sempre limpo e ele, charmoso, pêlo macio e bigodes
imensos não deveria se descuidar. Ah, mas o dia estava tão quente e ele se sentia tão
cansado… e assim pensando esticou as patas e depois começou a lambê-las
pacientemente… puxa vida! Que sonho mais estranho tivera. Que coisa de maluco! Três
ratos invadindo seu território e levando partes de sua comida… é… fora um sonho muito
doido mesmo. E assim pensando rolou para o outro lado e ficou admirando um raio de
sol que entrava por uma das janelas do corredor que ligava a sala de jantar à cozinha.
Esse solzinho da manhã é uma maravilha… seria bom se ele brincasse um pouco de
passar seu corpo através dessa luzinha, mas a noite fora muito boa e agora estava
ficando muito quente e com calor não há nada melhor do que ficar deitado esperando a
menina Manú trazer sua comidinha… oh, céus! Havia esquecido! A menina deixara sua
comida na cozinha e ela devia estar no pratinho, suculenta, lhe esperando. Mal acabou
de ter esse pensamento e se virou para olhar a porta que ligava o corredor à cozinha… e
viu quatro ratos levando pedaços de sua comida. Ahã! Não era sonho! A casa estava
mesmo sendo atacada por ratos. Como ousavam? Não havia mais respeito por um
grande caçador, como ele? Isso só podia ser coisa daquele nojentinho do Frederico,
aquele gato bobão da casa vermelha… sim, aposto como ele fez acordo com esses ratos
para não comê-los em troca de virem me o perturbar, sim, porque ele come ratos, argh!
Que nojo! Sim, somente isso explicaria ele estar vendo quatro ratos dentro de sua casa,
roubando a sua comida. É… estava na hora de mostrar quem é que manda no pedaço…
hi, hi, hi, que loucura… esse calor forte está lhe afetando os miolos… nenhum rato se
atreveria a encarar a sua ira felina… que bobagem… e assim pensando Janjão fechou os
olhos e voltou a cochilar.

O sol devia estar lá no alto… já devia ser meio-dia… sim, agora era hora de levantar e ir
degustar o seu prato preferido: atum ao molho de tomate! Que delícia! Mais uma vez
esticou suas patas, rodou a cabeça e disse para si mesmo: “Vai garoto, seu gato
gostosão!”, coçou a barriga e se assustou a ver que estava muito murcha. É… precisava
comer e já! E assim pensando virou-se para o lado da cozinha, se preparando para
levantar-se… quando viu cinco ratos passando pela porta levando pedaços de sua
comida. Instintivamente ele se levantou e disparou em direção a cozinha. Quando
chegou, viu o último dos ratos passando por debaixo da porta. Tentou pegar seu rabo
com a pata, mas não obteve sucesso. O rato escapara. “Tudo bem”, pensou em seguida,
“vou comer minha comida e esperar que eles voltem para pegar mais, aí, eu os pego
com a boca na botija.” E assim pensando virou-se para o lugar onde estava o pratinho
com sua comida e ficou paralisado. Os ratos haviam comido toda a sua comidinha.
Desesperado correu até a lixeira para ver se ainda tinha alguma coisa na lata e viu que
ela estava limpinha. “Malditos ratos!”, pensou, “comeram toda a minha comida!”

Janjão, agora, estava numa situação difícil: não tinha mais comida e nem podia sair para
procurar alguma coisa pelas redondezas porque a casa estava toda fechada. É… sua
preguiça fora fatal… de que adiantava agora estar descansado se não tinha comida e nem
como sair… realmente a preguiça não é boa companheira… e pensando assim, Janjão
voltou para seu tapetinho e procurou dormir para tentar enganar a fome enquanto
esperaria a menina Manú chegar e colocar mais atum com molho de tomate em seu
pratinho.

A menina que queria prender o sol

Beatriz é uma menina muito espevitada. Tem quatro anos, mas gostaria de ser adulta.
Quando perguntada o por quê desse desejo, responde que adulto pode tudo, inclusive ver
televisão até de manhã. Não adianta explicar que adulto tem insônia e que às vezes ver
televisão na madrugada ajuda passar o tempo. Ela retruca que o tempo não pode passar,
pois tem muita coisa para fazer, inclusive brincar.

Bia, como Beatriz é mais conhecida, gosta muito de desenhar e pintar. Não necessariamente
nesta ordem, mas a qualquer hora do dia… ou da noite. Ela é um pinguinho de gente,
magrinha com cabelos negros e escorridos que às vezes lhe cobrem os olhos de menina
sapeca. Faltou dizer que Bia também chora por quase nada. Nada? Para ela é quase tudo.

Semana passada Bia dormia em seu quarto, ainda de manhã, quando um raio de sol
começou a brincar com seus olhos. Sonolenta ela os cobriu para fugir do sol e continuar a
dormir, mas o raio de sol penetrou por uma fenda da coberta e iluminou os seus olhos. Ela
então, os cobriu com as mãos, mas esqueceu-se de fechar os dedos e o raio de sol continuou
iluminando seus olhos. Então, ela se virou de bruços para fugir do insistente raio de sol
cobrindo-se totalmente. Quando se descobriu, percebeu que o raio de sol agora iluminava
sua cama. Bia teve uma grande ideia: pegaria o raio de sol e o guardaria dentro de uma de
suas inúmeras caixas de brinquedo. Quando botou a mão em cima do raio de sol viu que ele
ficou por cima de sua mão. Intrigada tentou cobrir o raio de sol com a outra mão, mas ele
também ficou por cima de sua outra mão.

“Caraca! Esse sol é muito esperto! Como vou prender esse solzinho?” – perguntou-se
Beatriz.

Olhando em volta de seu quarto procurou alguma coisa que pudesse lhe servir para
aprisionar aquele teimoso raio de sol, mas tudo que usava não conseguia prendê-lo. O que
também estava deixando Beatriz irritada era o fato de que o raio de sol, com o passar do
tempo, mudava de lugar e agora já estava sobre o seu tapete de borracha vermelho. Ela
pensou em chamar sua mãe, mas lembrou-se de que ela sempre lhe dizia que já era uma
mocinha e que não podia mais chorar à toa e, se era assim, ela com certeza também poderia
prender aquele simples raiozinho de sol.

“Tenho que prender esse solzinho em algum lugar antes que mamãe venha me acordar. Se
ela entrar aqui e encontrar esse sol como vou dizer que ainda é muito cedo para me
levantar?” – pensou Beatriz.

Bia tentou prender o sol com um saco, com uma colcha, com uma luva, um casaco, um
caderno, um prendedor de cabelo, uma revista, uma sandália e até com seu roupão, mas
nada conseguia aprisionar o raio de sol.

“Beatriz!”, ela ouviu a voz de sua mãe lhe chamando.

“Estou perdida! Quando ela entrar e encontrar esse solzinho não terei como ficar na cama
um pouco mais…”, pensou Beatriz.

De repente sua mãe entrou no quarto e foi então que o milagre aconteceu: uma nuvem
enorme ficou em frente à janela de seu quarto, aprisionando o raio de sol.

“Ufa!”, pensou Beatriz, “Estou salva.”

“Minha filha, o que você está fazendo fora da cama? Ainda está com soninho?”

Beatriz fez que sim com a cabeça, então sua mãe falou:

“Hoje é sábado e não tem escola. Você pode dormir mais um pouquinho.”

Beatriz ficou feliz com a notícia. Olhando para a janela onde a nuvem começava a soltar os
raios de sol, disse para sua mãe:

“Está um lindo dia e eu quero me levantar cedo para brincar muito!”.

O Olhar Oblíquo do Medo – Capítulo I

O avião havia aterrissado a cerca de dez minutos no Aeroporto Santos Dumont, na Cidade do Rio de Janeiro. O voo, procedente de São Paulo, atrasou mais de meia hora em função do mau tempo, impedindo a decolagem no Aeroporto de Congonhas.

Túlio andava de um lado para outro em frente ao portão de desembarque massacrando um chiclete na boca. Receou que a pessoa que esperava tivesse desistido, impedindo a concretização das ações que lhe foram atribuídas. Quando os passageiros começaram a sair, os olhos treinados de Túlio procuraram o homem com a descrição que lhe passaram: altura mediana, entre vinte e cinco e trinta anos, branco, orelhas deformadas pelo arrasto no tatame e uma singular tatuagem de labaredas lhe subindo pelo pescoço.

Túlio não tardou a identificar o sujeito caminhando com passos decididos em direção à saída do aeroporto, talvez a procura de um taxi. Túlio jogou na lixeira o pedaço de papel toalha que usou para secar as mãos suadas e apressou os passos a fim de não perder o alvo de vista. Antes de chegar ao ponto de taxi, o alcançou. Decidido, tocou no ombro do homem fazendo com que ele se virasse em sua direção.

– Oi, tudo bem? – Túlio lhe abriu um sorriso.

– Quem é você? – a pergunta demonstrava mais cuidados do que curiosidade.

– Túlio. Trabalho para Fábio. Carniça me pediu para vir buscá-lo.

– Não foi esse o combinado. – disse o sujeito arqueando uma das sobrancelhas.

– Acontece que Waldomiro já está no hotel e tem que partir o mais rápido possível. Por isso Carniça me pediu para te buscar.

– E onde está o carro?

– No estacionamento. – disse Túlio apontando à esquerda.

O sujeito mordeu os lábios, transparecendo desconfiança ante aquela mudança de planos. Por fim começou a caminhar na direção apontada por Túlio, sendo seguido por ele.

Chegaram ao estacionamento onde Túlio apontou um Renault Megane de cor preta e apertou o segredo existente na chave do carro para destravar as portas.

– Coloque a sua mala no banco traseiro – disse.

Ele assumiu o volante tendo seu acompanhante sentado ao seu lado e saiu do estacionamento, seguindo em direção à zona sul. O Renault mergulhou por baixo das pistas do Aterro do Flamengo para fazer o contorno e pegar a pista no sentido Copacabana. A força centrifuga produzida durante a curva espremeu o sujeito na porta, obrigando-o a levar a mão esquerda ao painel para se equilibrar. Túlio manteve uma das mãos segurando o volante. Com a outra pegou debaixo de seu banco uma pistola com silenciador. Apontou de imediato para a cabeça do homem e apertou o gatilho uma única vez. O sangue jorrou do furo provocado pelo projétil desenhando uma borrasca vermelha na porta do carona. Túlio dirigiu mais alguns metros até encontrar um Renault Clio parado no acostamento com as luzes do alerta piscando. Parou o carro, pegou um pedaço de pano no banco traseiro e passou pelo volante. Precisava limpar todo e qualquer vestígio que pudesse deixar de sua presença. Saiu do carro e se dirigiu ao Clio. Abriu a porta dianteira e sentou-se ao lado do motorista sumindo no transito denso daquele principio de noite no Aterro do Flamengo.

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